A Febre – Megan Abbott

Até que ponto um segredo pode elevar ou destruir o enredo de um livro? Acho que, para falar de A Febre devemos começar por aqui: a trama misteriosa, conduzida por uma narrativa questionável, mas que, ainda assim, pode prender o leitor, pode fazê-lo buscar as respostas que demarcam a narrativa do começo ao fim.

Confesso que tinha inúmeras expectativas a respeito do livro. Elevadíssimas, por sinal. A trama tem uma proposta boa, vamos combinar: uma série de acontecimentos inexplicáveis que levam garotas de um pequeno colégio, que fica em uma pacata cidade estadunidense, a terem convulsões. Essas convulsões as fazem tremer, as incapacitam de qualquer coisa que seja.

Primeiro começa com Lise, que é amiga de Deenie, que é, digamos, a “protagonista” do livro. Depois Gabby. E depois, muitas outras garotas da escola. O que será que estaria levando aquelas meninas, que nunca antes sofrera aqueles tipos de sintomas, até aquele ponto?

A partir desse plot a autora desenrola uma trama que se subdivide em pontos focais de três personagens distintos: a própria Deenie, seu pai Tom, e seu irmão, Eli. Embora as narrativas aconteçam em terceira pessoa, cada parte está centrada nos recortes de vida desses três personagens.

Todo o mistério do livro se dá a partir de tentar encontrar a solução para esse problema inusitado e imprevisto. Da primeira a última página, a autora se preocupe em criar no leitor esse sentimento impreciso de dúvida, de lacunas a serem preenchidas por pistas vagas – para um clímax um tanto quanto óbvio.

Não é de todo ruim, mas há de se esperar mais, tanto pelo comentário da Gillian Flynn – autora do sucesso Garota Exemplar - quanto pela própria opinião da crítica. O livro tem comentários elogiosíssimos de jornais importantes e, bem, não acho que ele cumpra todos.

O enredo não é ruim, mas passa longe de ser um grande livro de suspense. Não nego que a trama central é instigante e interessante. O leitor fica, a todo instante, querendo descobrir o que de fato está acontecendo – e, pra mim, isso é um grande mérito de qualquer livro do gênero. Mas é preciso ir além.

Para que o efeito seja categórico, é preciso construir camadas contundentes, é necessário aprofundar os personagens, seus dramas, suas relações. Aqui só acontece superficialmente e, se autora não peca por técnicas que jogam o leitor literalmente no meio de todo esse mistério, ela deve muito nessa arquitetura de persona.

Todo bom romance conta mais do que uma boa história, cria no leitor um laço afetivo – seja ele positivo ou negativo – com os personagens. Se os personagens são apáticos, o enredo acaba desbotando. E isso faltou.

Vocês poderiam me perguntar se recomendo a leitura, e eu diria que sim, mas não vá querendo mergulhar numa grande história. O livro é um interessante até certo ponto: pode incomodar alguns com detalhes desnecessários, pode agradar a outros pela construção minuciosa de cenários – há um rio na cidade que é mais intrigante e interessante do que todos os personagens juntos.

Então assim, leia com ressalvas. Você pode adorar ou odiar, é uma experiência muito pessoal. Mas, se lerem, quero saber tudinho, tá?

Boa leitura!

Na Escola Secundária de Dryden, Deenie, Lise e Gabby formam um trio inseparável. Filha do professor de química e irmã de um popular jogador de hóquei da escola, Deenie irradia a vulnerabilidade de uma típica adolescente de 16 anos. Quando Lise sofre uma inexplicável e violenta convulsão no meio de uma aula, ninguém sabe como reagir.
Os boatos começam a se espalhar na mesma velocidade que outras meninas passam a ter desmaios, convulsões e tiques nervosos, deixando os médicos intrigados e os pais apavorados. Os ataques seriam efeito colateral de uma vacina contra HPV?
Envoltos em teorias e especulações, o pânico rapidamente se alastra pela escola e pela cidade, ameaçando a frágil sensação de segurança daquelas pessoas, que não conseguem compreender a causa da doença terrível e misteriosa.

3 comentários:

  1. Admito que nunca tinha lido ou visto nada a respeito deste livro, mas realmente o tema é bem instigante. Misterioso..rs(adoro)
    Mas para ser um bom livro de suspense, é preciso ir realmente muito além dos motivos ou situações. Os personagens precisam ser explorados, acho que igual a uma bela e gordinha cebola, camada, por camada. É isso que dá aquele tempero no enredo.
    Mesmo assim, se tiver oportunidade, lerei sim. Afinal concordo com sua opinião, livro é algo único e cada leitor tem um tipo de experiência com o livro lido!
    Beijo

    Rubro Rosa/O Vazio na Flor(Angela Cunha Gabriel)

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  2. Ronaldo!
    Concordo com você, um thriller para ser bom, além de todo suspense e mistério, devemos ser mais aprofundados nas origens e na vida das personagens, porque afinla, seria uma boa pista para entendermos o sentido de tudo.
    Alguns desses thrilles tem muita divulgação e bons comentários, mas no fundo, ficam a desejar.
    cheirinhos
    Rudy

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  3. Olá! Esse é um dos gêneros que estou tentando dar mais atenção esse ano, conheci uma série maravilhosa que estou bem ansiosa para começar (Will Trent), por isso, cada vez que vejo uma dica fico alerta para saber se vai ou não para a lista, para ser sincera, o enredo não despertou tanto assim meu interesse, ainda mais depois dessa resenha, mas nada definitivo, porque sou daquelas leitoras bipolares (risos), na verdade fiquei com medo de algumas cenas mais assustadoras, afinal não dá para ler de olhos fechados neh! Mas uma pena que o enredo não foi assim tão bem aproveitado, mas mesmo com esses detalhes, quem sabe num futuro ele não possa entrar na minha listinha.

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