O conto da Aia - Margaret Atwood

Olá pessoal, você já pensou na possibilidade de viver em um país no qual mulheres teriam pouquíssimos direitos ou quase nenhum, entre eles, o apenas de cuidar do lar e/ou procriar? Pois Margaret Atwood pensou, hoje falaremos sobre O conto da Aia, inspirado em 1984 de George Orwel.

É bom lembrar que a provocação inicial parte de uma perspectiva das sociedades ocidentais, e de forma alguma, ignoramos aquelas na qual o sexo feminino não possua nenhuma prerrogativa legal para sua segurança.

Pois bem, vamos para o livro. A história é uma distopia, mas não caia na armadilha de pensar num futuro distante, não! Esse futuro é muito próximo, tipo, semana que vem por exemplo; e é construído pouco a pouco pela fala da personagem principal, June, mas que terá seu nome mudado para Offred. Esse novo nome tem a ver com as novas classes sociais que foram impostas. É um tipo de justaposição que significa que determinada pessoa pertence à casa de Fulano. No caso dessa personagem, Of e Fred, nome do Comandante que ela estava vinculada. Esse nome é mudado assim que a moça é transferida de posto, entenda, casas onde elas residirão temporariamente. Aqui temos a tônica do livro, que é a coisificação da mulher, do ser humano, a ponto de não darmos nem a prerrogativa da individualidade como um simples nome.

Nessa história a humanidade passa por algumas crises, entre as mais urgentes está a queda de fertilidade, ou seja, o risco de extinção. Essas Aias são as poucas mulheres férteis que há ainda no mundo, são identificadas pelas roupas vermelhas e chapéus brancos e suas permanências nas casas dos comandantes, membros do governo daquela sociedade, nada mais é que a tentativa de elas darem filhos para o mundo. Isso se dá da forma mais vil e abjeta que vocês possam imaginar.  Elas são estupradas com a ajuda das esposas, que no geral não podem ter filhos por serem velhas ou inférteis, após lerem uma passagem da Bíblia num ritual antes do ato, na qual se refere a Jacó sua esposa e a serva.Gênesis, 30: 1-3.

Pensamos que o estupro pode ser o pior a acontecer com as mulheres, mas infelizmente não. Há situações em que uma mulher nessa nova classe pode ser considerada uma “não mulher”. O que é pior, e a única serventia seria o trabalho forçado em colônias agrícolas ou químicas, onde morreriam após terem sua pele desgrudada do corpo por conta da insalubridade do local. Claramente uma alusão aos Campos de concentração nazista e stalinista.

Não é só essa comparação que fazemos com esses regimes, há outras igualmente perversas. O dito, “Muro”, onde pessoas traidoras do regime ou de gêneros, como são chamados os homossexuais, eram pendurados como exemplo. Normalmente, as pessoas enforcadas no Muro eram médicos que outrora praticaram o aborto, não importando se legal ou ilegal; padres ou quaisquer membros de outras religiões que não fosse a do Estado vigente, além dos traidores em geral. Cada um dos mortos possui um símbolo afixado em seus corpos designando seus crimes.

A história é contada em primeira pessoa e não é uma narrativa simples e nem linear, porém não é complexa. Ela só requer muita atenção, pois a autora abusa do fluxo de pensamento na narrativa; a personagem narra trechos da sua vida atual com o de antes, dando-nos pistas de como aquela sociedade chegou naquele ponto. Seus pensamentos são variantes entre o antes, o depois e o durante, pouco a pouco conhecemos mais sobre sua vida antes e no agora e conhecemos um pouco mais sobre sua família e amigos, que estão com ela apenas em memórias nostálgicas. Os detalhes são minuciosamente mencionados para termos a mesma sensação da personagem de que até coisas triviais da vida de antes são importantes agora. Os fragmentos de histórias nos remete ao estado mental de Offred, despedaçados, mutilados e espalhados por todos lados. Cada trecho relembrado é uma tentativa da personagem se recompor em sua individualidade e em sua essência como ser humano. É cada parte recolhida, após a mudança de regime do seu país que a mutilou por dentro.

O livro não é uma das leituras mais prazerosa que você vai ter, muito menos divertida, porém acredito que seja extremamente necessário para mantermos-nos vigilantes em nossos direitos. Essa é uma de suas mensagens centrais.

Há também uma série baseada no livro pelo serviço de streaming Hulu norte americano, e lá esse universo é expandido, inclusive deixando claro, uma suspeita que no livro é bem vaga, de que a infertilidade atinge apenas aos homens.

See you in space cowboy.

Koudan - Professor de História, Orientador Educacional e Contista, foi membro do Núcleo de Literatura da Câmara dos Deputados  e pesquisador em História oral e Mitologia greco-romana. Amante de ficção científica e animação, e leitor ávido de quadrinhos e livros.



3 comentários:

  1. Que série espetacular!Acabei de ver recentemente a segunda temporada na tv e posso afirmar sem vergonha nenhuma, que é uma das melhores séries que já vi em todos meus anos de seriadora voraz!
    E infelizmente concordo com você, tudo que é relatado e retratado não está distante de nós, infelizmente. Aliás, penso eu, que está perto demais.
    A cada dia que ligamos a tv, nos deparamos com mulheres sendo caladas brutalmente.
    Preciso ler o livro, não para mudar nenhum sentimento que tenho em relação a tudo isso, mas para sim, não me calar diante destes sentimentos!!!
    Beijo

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  2. otima resenha .já tinha lido pouca coisa a respeito desse livro,mas não imaginava que se tratava de uma realidade tão cruel e o que é pior as crueldades continuam sendo praticadas.ASSISTIREI A SERIE .E quando for possivel lerei o livro.PARABENS PELA RESENHA
    OBRIGADA POR MAIS UMA DICA

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  3. Kondan!
    Em época de empoderamento feminino, esse livro parece ser um choque.
    Mesmo que seja uma distopia, ver tamanhas atrocidades serem empretadas as mulheres e aos menos favorecidos, causa certa repugnância.
    A verdade que mesmo com toda 'conspiração' por traz do regime e todo sofrimento, quero ler.
    Já tive oportunidade de acompanhar a primeira temporada da série televisiva e realmente é bem cruel.
    cheirinhos
    Rudy

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