O sol na cabeça - Geovani Martins

Com uma trama gerida no seio da margem, Geovani Martins, em O Sol na Cabeça, potencializa uma voz abafada, histórias ficcionais da vida real que impressionam pela nudez narrativa, pela despretensão literária e pelo fôlego inédito de um estilo autêntico e peculiar.

Os treze contos que, unidos, estruturam a obra, aparentemente têm de comum apenas o cenário, mas, lidos atentamente e coerentemente observados, caracterizam um lugar cuja importância se dá em cada detalhe de cada história. Acho que o mais impressionante é o poder das particularidades, as individualidades dos personagens e a interdependência das pequenas histórias.

Elas são, todas elas, fermentadas pelo sol escaldante carioca, pelo anseio de conquistar espaços, para predeterminação desses mesmos espaços, pelo preconceito social, pela incessante luta em busca das partes boas da vida.

São histórias que nada tem de suavidade, que se afirmam o tempo inteiro, que se reinventam enquanto estão sendo escritas.

E essas mesmas histórias são, ao mesmo tempo que ingênuas e inocentes, quando ele fala do descobrimento da infância através da transformação de uma lagarta em borboleta, violentas e cruéis, quando ele disseca o sentimento de não pertencimento, de busca por aceitação, de olhares velados.

O autor, certa vez em uma entrevista, disse que não entendia o fenômeno que seu livro tinha sido porque... na periferia, na favela, há inúmeros escritores que escrevem... o que ele escreve. Sua felicidade foi ter achado alguém que apostasse nele.

Bem, não foi exatamente dessa forma, mas pensem que a essência  da afirmação é a mesma. Veja como carecemos dessa literatura que nos desvela uma realidade típica social que ignoramos - por querer ou por não acessar - diariamente.

Por isso a importância do livro, do conto, das histórias. Por isso a importância do Geovani em nos trazer os relatos, em potencializar essas vozes, a sua própria voz, os espaços que ocupa, sua realidade em ficção.

Impressionante também é a forma estrutural como o faz. De um gramaticalmente correto a uma oralidade genuína, os contos fluem da junção de "duas linguagens", nasce dessa interpelação linguística que cadencia um ritmo diferente e curioso, próprio.

Acho que, embora abordem questões que, por vezes, se diferem, ele me lembrou muito o No Seu Pescoço, da Chimamanda: me parece o mesmo anseio, as motivações não relevadas parecidas (posso estar enganado, mas prefiro acreditar que ambos, embora de maneiras diferentes, trazem problemáticas parecidíssimas).

Leiam Geovani Martins. Duro, necessário e absolutamente instigante.

Em O sol na cabeça, Geovani Martins narra a infância e a adolescência de garotos para quem às angústias e dificuldades inerentes à idade soma-se a violência de crescer no lado menos favorecido da “Cidade partida”, o Rio de Janeiro das primeiras décadas do século XXI.
Em “Rolézim”, uma turma de adolescentes vai à praia no verão de 2015, quando a PM fluminense, em nome do combate aos arrastões, fazia marcação cerrada aos meninos de favela que pretendessem chegar às areias da Zona Sul. Em “A história do Periquito e do Macaco”, assistimos às mudanças ocorridas na Rocinha após a instalação da Unidade de Polícia Pacificadora, a UPP. Situado em 2013, quando a maioria da classe média carioca ainda via a iniciativa do secretário de segurança José Beltrame como a panaceia contra todos os males, o conto mostra que, para a população sob o controle da polícia, o segundo “P” da sigla não era exatamente uma realidade. Em “Estação Padre Miguel”, cinco amigos se veem sob a mira dos fuzis dos traficantes locais.
Nesses e nos outros contos, chama a atenção a capacidade narrativa do escritor, pintando com cores vivas personagens e ambientes sem nunca perder o suspense e o foco na ação. Na literatura brasileira contemporânea, que tantas vezes negligencia a trama em favor de supostas experimentações formais, O sol na cabeça surge como uma mais que bem-vinda novidade.

5 comentários:

  1. Acabei tendo conhecimento deste livro em um programa de tv, não faz muito tempo e vou confessar que nem sabia da existência dele. Engraçado que na época foi dito no comercial de tv que era o livro mais vendido nos últimos tempos e eu fiquei pensando: Em que planeta?rs
    Daí fui atrás e vi que eram contos, nada tão complexos, mas que traduzem a vida, apenas isso e escritos de forma mais simples ainda, sem deixar que a beleza perdesse o sentido.
    E por alguém que vivia tudo aquilo na pele.
    Com certeza, por amar contos, ainda espero ler a obra sim!
    Beijo

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  2. Eu to muito curiosa pra ler esse livro... muito mesmo.. Ta na fila, e lendo resenhas como a sua, me deixam com mais vontade ainda

    Bjs
    Ana Paula
    Paixão por Leituras

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  3. Ronaldo!
    Vi a entrevista do autor no programa do Bial e na verdade são contos ficcionais veridicos, sobre o que ele viu e vê nos lugares por onde mora. A linguagem é bem do morro mesmo, com gírias e tudo para que todos possam ler.
    Quero muito ter oportunidade de ler e conhecer o autor.
    Uma ótima semana!
    “O amor é a força mais sutil do mundo.” (Mahatma Gandhi)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA AGOSTO - 5 GANHADORES - BLOG ALEGRIA DE VIVER E AMAR O QUE É BOM!

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  4. Olá Ronaldo!
    Não conhecia o livro ainda, parece bacana, gostaria de conhecer com toda ctz pois me deixou bastante curiosa.
    Bjs!

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  5. A primeira vez que ouvi falar sobre esse livro foi quando o próprio autor divulgou no Instagram e eu fiquei impressionada com o fato de que apesar de ter poucas páginas o livro pode abordar tão bem e tão profundamente a questão das diferenças sociais e vários outros conflitos que atualmente dominam o nosso país e eu fiquei mais surpresa ainda porque não sabia que o livro era brasileiro e bater um orgulho tão grande Quando eu soube desse livro que a única coisa que eu consegui fazer foi comprar ele e devorar página por página Foi simplesmente uma das leituras mais lindas e interessante instigante e que eu li neste ano

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