De quantas ausências um homem é feito? Quantas destas ausências cabem num caderno? Numa obra?
João Anzanello Carrascoza destrincha as sensibilidades de uma vida cotidiana regada por ausências, dores e pequenas alegrias, epifanias que significam a existência.
Em um tom íntimo, adentramos nas angústias de João (aqui, o personagem) que, aos cinquenta anos, se vê pai pela segunda vez. Para Bia, escreve motivado pelas hesitações e medos do depois.
O que mais impressiona, no entanto, é a inevitabilidade dos afetos que tornam a narrativa tão sensível e delicada; entrega ao leitor um livro difícil de largar e esquecer, demasiado permanente.
A prosa poética de Carrasoza não se poupa às metáforas, à musicalidade, ao olhar pra qualquer pequeno aspecto como um potencial reflexivo gigantesco - sem exagerá-lo. As memórias são puxadas pelo narrador como um fio que tece, página a página, uma vida futura que acontece no presente.
E por ser tão presente e urgente, por ser um rio fundo, é que coloca o leitor, de certa forma, no centro desse conflito, tornando também família; como se, pelo milésimo de segundo que o livro demora pra acontecer, nos tornássemos parte João e parte Bia. Parte nós mesmos.
Neste segundo romance, a estrutura formal continua a ser a principal pesquisa literária do autor. Como o título traz, o narrador desta história, um homem de cinquenta e tantos anos, escreve em um caderno anotações de vida para sua filha recém-nascida, Beatriz. Temeroso de que não acompanhará a maturidade da filha, uma vez que a diferença de idade é muito grande, o homem se põe a narrar a história da família entremeando por impressões filosóficas e poéticas sobre a trajetória de uma vida. A intenção do pai, porém, não é mostrar uma verdade, mas sim a delicadeza - "e eu só sei, Bia, que, em breve, não estaremos mais aqui, e, enquanto estivermos, eu quero, humildemente, te ensinar umas artes que aprendi, colher a miudeza de cada instante, como se colhe o arroz nos campos, cozinhá-la em fogo brando, e, depois, fazer com ela um banquete". Mas mesmo essas palavras, que compõem pequenos trechos escritos ao longo do primeiro ano de vida da criança, não são suficientes para satisfazer o pai - "eu ia te contar o segredo do universo como quem sussurra uma canção de ninar, mas eu não posso, filha, eu só posso te garantir, agora que chegastes, a certeza da despedida". No texto deste "caderno", o leitor pode acompanhar também a inquietação do pai, ao longo de um ano, pela saúde da mãe de Bia, que vive doente e requer cuidados tanto quanto a criança. O leitor irá reparar que o texto diagramado apresenta espaços em branco ao estilo de Dos Passos - além de expressarem os vazios que a ausência já ocupa, são hesitações deste pai ao tentar escrever a educação sentimental para a filha.













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