Amigos por tabela


Sabe aquele amigo que, na verdade, é amigo de um amigo?
Aquele que está sempre junto. Que entra naturalmente na lista dos convidados porque alguém diz: "Chama fulano também", "Pode trazer ciclano, não tem problema".
E ele vai.
Vai ao churrasco, ao aniversário, ao café, às viagens, às comemorações... Sempre presente. Sempre fazendo parte da turma. Mas, se formos sinceros, raramente é ele quem recebe o convite diretamente. Ele chega porque existe um amigo em comum.
É o famoso "amigo por tabela".

Durante muito tempo, eu achei que essas pessoas apenas transitavam pela nossa vida. Que, se um dia deixassem de aparecer, seria apenas consequência do tempo. Afinal, amizades mudam, ciclos terminam, pessoas seguem caminhos diferentes.
E isso realmente acontece.
Os amigos se afastam, novas pessoas chegam, a rotina muda e, quando percebemos, faz anos que não vemos aquele rosto que costumava estar em todas as fotos.
Até que um dia a vida resolve cruzar nossos caminhos outra vez.

Foi exatamente isso que aconteceu comigo.

Encontrei uma dessas pessoas que, durante anos, esteve presente em tantos momentos da minha vida. E, em poucos minutos de conversa, fui tomada por uma saudade enorme daquela época. Não apenas das festas ou dos encontros, mas da leveza daqueles dias em que a presença dela parecia tão comum que eu nunca parei para pensar no quanto ela fazia parte das minhas lembranças.
Mas o maior susto ainda estava por vir.
Conversando, descobri que eu também havia deixado uma marca na vida dela.
Uma marca que eu jamais imaginei.
Hoje ela está grávida, vivendo uma fase linda, e escolheu dar ao filho o nome de um autor porque, muitos anos atrás, eu a presenteei com um livro desse escritor.

Você consegue imaginar o peso - ou melhor, a beleza - disso?

Um gesto que, para mim, foi apenas um presente entre tantos, permaneceu vivo no coração dela durante todos esses anos.
Naquele instante, eu entendi uma coisa que nunca tinha parado para pensar.
Aquele "amigo por tabela" nunca me enxergou como alguém que apenas o aceitava porque fazia parte do grupo. Pelo contrário. Ele se sentia querido. Valorizado. Bem-vindo. Me considerava uma amiga de verdade.

E isso me deixou feliz.
Muito feliz.
Mas também um pouco triste.
Triste por perceber que, sem querer, deixei essa amizade escapar junto com o tempo. Triste por nunca ter imaginado a importância que eu ocupava na vida daquela pessoa.

Desde esse encontro, venho pensando bastante sobre isso.
Quantas pessoas circulam ao nosso redor sem fazer muito barulho? Quantas estão sempre presentes, mas acabam ficando à margem das nossas atenções simplesmente porque chegaram através de alguém?
E, mais importante ainda...
Quantas delas nos enxergam como alguém muito mais importante do que imaginamos?
Às vezes, estamos tão ocupados vivendo a nossa própria história que esquecemos que também fazemos parte da história de outras pessoas.
Podemos ser apenas mais um personagem para nós mesmos, mas ocupar um lugar especial no universo de alguém.
Talvez esteja na hora de olhar um pouco mais para quem caminha ao nosso lado.
De valorizar as pessoas enquanto elas ainda estão por perto.
De ouvir mais, acolher mais, convidar mais e demonstrar carinho sem esperar uma ocasião especial.
E, principalmente, de não nos acharmos importantes demais para perceber quem está ao nosso redor.

No fim das contas, somos apenas um ser habitando o universo de muitas pessoas.

E talvez a maior gentileza que possamos oferecer seja enxergar cada uma delas não como um "amigo por tabela", mas como um amigo de verdade.





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