Ilhas Suspensas - Fabiane Secches


Ilhas Suspensas
é um romance sobre deslocamentos. Literais e metafóricos. É uma história que mergulha na psique de uma protagonista controversa e adorável, uma Mariana que custa ao cômodo.

Por meio dessa personagem, encaramos um cenário que se desdobra numa narrativa curta, mas precisa: os conflitos advindos de um questionamento central sobre maternidade; a mudança para um novo país e a (adaptação) com o novo idioma; a sensação constante de um pertencimento simulado.

Enquanto esses processos se dão, Mariana ainda se dedica à escrita de uma tese de doutorado. Aqui, especificamente uma metalinguagem interessantíssima utilizada de maneira autêntica pela autora - em uma mescla que pactua com o leitor um jogo ficcional com termos pouco definidos, mas muito evidentes.

O que mais me impressionou não foi apenas a "agilidade" com a qual a história se desenvolve, mas como esse ritmo imprime uma sensação constantemente de sufocamento, ao tempo em que não parece apressado. A construção de Mariana e todo o universo que a orbita é feita com uma lucidez que confunde os limites da ficção.

Fabiane Secches cria neste romance de estreia uma espécie de ode à busca por si mesma. Tensiona, através de sua voz autoral, aspectos essencialmente indissolúveis da nossa natureza, buscando um retorno que, por vezes, pode parece inglório, mas é sempre e constantemente necessário.


Mariana tem encarado a maternidade sob diferentes formas: primeiro, com a morte de sua mãe; depois, com a frustração de várias fertilizações in vitro malsucedidas; por fim, com o distanciamento da própria língua materna, quando se vê migrando com o marido para um país cujo idioma, “composto de fonemas desconhecidos”, ela não compreende. A dinâmica de constantes perdas leva Mariana a um quadro depressivo que só é aliviado pela companhia dos livros e de seu cachorro, Quincas.
Entre se adaptar ao novo bairro, acostumar-se ao clima estranho e se moldar à atual rotina do marido ― que, devido ao trabalho, se ambientou às mudanças com muito mais facilidade ―, Mariana se dedica à escrita de sua tese de doutorado, sobre a presença de animais na literatura, enquanto coleciona trechos das obras de Donna Haraway, Susan Sontag e Carola Saavedra, na tentativa de encontrar algum tipo de resposta para as suas inquietações. De fato, é na literatura que ela experimenta esse acalanto, mas é ao lado de um grupo de amigas imigrantes que a possibilidade de recomeçar se apresenta.



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