O Rio que me corta por dentro - Raul Damasceno


Com o perdão do trocadilho, "o rio que me corta por dentro" é um mergulho intenso, bonito, um mar que corre por meio de uma narrativa poética sensível, dessas difíceis de esquecer.

Raul Damasceno entrega uma obra comovente, conduzida pelo olhar de um narrador onipresente que se faz personagem por meio da voz de Cícero, protagonista, alma da prosa que se derrama em terreno árido, no entanto fértil.

É um livro sobre os limites do amor, sobre as dificuldades do percurso, sobre uma mãe e um filho, uma avó, uma configuração de família, uma amizade, um rio, sobretudo as águas desse rio literal e metafórico.

Dois meninos e um sentimento!

Fazia tempo que não lia um livro que me fizesse chorar, me tocasse nesse lugar das sensibilidades mais íntimas. O autor é preciso no que quer dizer e no que diz; por isso sua história permanece, torna-se perene nas mãos do leitor.

O que mais impressiona é o modo como a dureza do cenário contrasta e se mescla com a subjetividade de cada personagem, complexo e único à sua maneira.

Seja Cícero e Luzimar, na descoberta de um sentimento (quase) proibido; Aneci, no seu amor pelo filho que dá e retira; Zulmira, neste papel tão "lugar" de avó; e tantos outros.

Sem dúvidas uma das melhores leituras que fiz em 2025 e um livro de vida. Inesquecível de todas as formas que pode ser!

Em Carrasco, lugarzinho perdido no sertão cearense, Cícero passa a infância à espera. A mãe, Aneci, trabalha como empregada doméstica na capital e volta apenas uma vez por ano, sempre em dezembro, para a terra que tanto a machucou e para o filho. E são nesses poucos dias que o garoto deságua em amor. No restante do ano, Cícero aprisiona a saudade. E cultiva o sonho de ir. Ir embora com a mãe. Ir embora encontrar a mãe. É só ao lado de Luzimar, vizinho e amigo, que a dor aquieta. Dois pares de pernas que correm Carrasco de ponta a ponta e desembocam na beira daquele rio que tudo leva, menos a saudade. Essa fica represada, à espera do próximo ano-novo. Até que Aneci deixa de voltar. Enquanto a espera se prolonga após dezembros de ausência, Cícero e Luzimar se descobrem homens ao se encontrarem um no outro. Mas ser homem nestas terras e nestas águas também significa saber escolher bem suas armas… E a correnteza desse rio ainda tem muito passado para contar.




Nenhum comentário

Seu comentário é sempre bem-vindo e lembre-se, todos serão respondidos.
Portanto volte ao post para conferir ou clique na opção "Notifique-me" e receba por email.
Obrigada!