Lili: Novela de um luto - Noemi Jaffe


O luto é um sentimento solitário. Contraditoriamente vivo. Visceral. Ele acontece diariamente: é um processo, um fato cotidiano, uma falta constante. E o que nos une, nós todos, é também esse vazio, universalmente compartilhado, doído em cada um à sua própria maneira.

Noemi Jaffe transforma então em uma novela esse luto que precisa lidar com a morte - sim, a materialidade da palavra e a concretude do que ela significa - de sua mãe. Com uma narrativa que é, ao mesmo tempo, escorregadia e fatídica, a autora peregrina por todas as fases e sentimentos que a partida ocasiona: da suposta "preparação" ao adeus final.

Ao longo das pouco mais de cem páginas, o leitor é convidado, de forma íntima e diria até bonita - afinal a literatura tem esse poder de atenuar até o mais terrível dos acontecimentos -, a  conhecer Lili. O jeito que viveu e o jeito que morreu; uma sobrevivente do Holocausto, que atravessou as fronteiras de um país e construiu uma família numa terra estrangeira. Seus amores, medos, falhas; suas comidas, seus arrependimentos e suas manias.

Tudo sob o prisma de uma dor que nunca deixa de doer. Noemi Jaffe, escritora tão famosa, potente e importante, mostra-se agora numa espécie de autoficção desnuda e tenta buscar na palavra (intencionalmente ou não) a cicatrização, ou ao menos o ponto certo da sutura, de um luto que jorra - nas brechas de tudo que fica quando alguém vai embora.

Intimamente foi um livro que me fez chorar muito em uma tarde de quinta-feira. Um dos melhores que já li - na vida e no ano - que permanecerá, mesmo depois do depois, para além das minhas próprias fronteiras e faltas.

Boa leitura!

Ao trazer a morte da mãe para o centro deste relato, Noemi Jaffe, uma das principais vozes da literatura brasileira, expõe de forma brutal as feridas do luto e o que é possível fazer para vivê-lo.

Em fevereiro de 2020, aos 93 anos, falece Lili, sobrevivente do Holocausto, mãe de três filhas e viúva. Sua doença vinha se estendendo há tempos, mas isso não faz com que a dor de sua partida seja menor. A banalidade da causa, "uma infecção nos pés", é confrontada com um sentimento de descrença. Como é possível que aquela que sempre esteve presente não exista mais?
Com domínio narrativo único e uma honestidade perturbadora, Noemi Jaffe relata os primeiros dias após a perda da mãe, indo fundo em suas lembranças e seus anseios para produzir uma história sobre a morte, mas também sobre o que fica depois dela.


3 comentários

  1. Ronaldo!
    O luto é algo intenso e pouco falado.
    É o sentimento que sentiremos em algum momento da vida, já que a única certeza que temos é a morte.
    Deve ser um livro intenso e essencial.
    Para quem passou pelo luto, deve se identificar muito.
    cheirinhos
    Rudy

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  2. Eu sempre tive uma relação de respeito à morte que muitos não entendem. Não sei, não é crueldade ou maldade, mas apenas eu penso que respeito todo o processo da vida e não sei sofrer com o luto.
    Digo isso, por ter perdido pessoas perto demais, mas no fundo, ter ficado feliz com isso. Não pela forma, não pela perda, mas pelo respeito ao processo que Deus deu a cada um de nós.
    Acho que por viver com essa espada na cabeça desde os 15 anos de idade, passando por tantas cirurgias(foram 11 em que entrei num centro cirúrgico me despedindo de todo mundo) eu tenho isso comigo.
    Mas claro e claro, cada ser humano sente e precisa sentir de alguma maneira!!!
    Por isso, o tema do livro já me pegou pela mão e adorei é claro. Vou procurar por ele!!!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na flor

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  3. Luto é um dos meus temas favoritos. É algo que é muito comentado e estudado na minha religião, como é parte de algo que pretendo fazer todos os dias com o conhecimento da minha profissão. É algo dilacerador ou quase surreal que todos nós passamos ou vamos passar todos os dias sentindo a falta de alguém. Ainda mais quando em situações traumáticas e de acidentes coletivos tão impactantes para a humanidade, como o Holoscausto. Acho que o ser humano possui muitas formas de lidar com a morte, ou melhor dizendo com a falta de alguém importante pra nós, acredito que a leitura tenha sido uma válvula de escape e uma grande professora para todo mundo. Apesar de não ter lido o livro da resenha, tem outro que sempre indico chamado de "A morte ´é um dia que vale a pena viver". Acho uma leitura obrigatória para todos que pretendem mergulhar nessa temática. Obrigada pela dica valiosa. Cheirinhos de livro novo.

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