Analisando a música: Camila Camila – Nenhum de nós


O Analisando a música de hoje traz uma das canções que embalaram os corações dos jovens nos anos 1980. Porém o que parecia ser apenas uma música com um refrão fácil e que cantávamos a plenos pulmões era nada mais nada menos que um grito por socorro. A letra de Camila Camila trazia como tema violência doméstica, algo que infelizmente ainda é muito comum na nossa sociedade nos dias de hoje.  
Camila Camila foi o primeiro sucesso da banda Nenhum de Nós. A música foi responsável por inserir o grupo no rock profissional na segunda metade da década de 80, quando eles tinham apenas seis meses de formação.
Tentei dar a minha versão sobre a letra, sei que ela pode trazer várias visões e tal, mas espero que todos parem para ouvir e entender Camila Camila. 


Camila Camila – Nenhum de nós

Depois da última noite de festa
Chorando e esperando amanhecer, amanhecer
As coisas aconteciam com alguma explicação
Com alguma explicação

Imagina sair de casa para ir a uma festa com o namorado e voltar sabendo que aquela mínima coisa que supostamente aconteceu vai transformar a noite em mais um pesadelo, e o desejo é apenas que amanheça logo para que tudo acabe.

Depois da última noite de chuva
Chorando e esperando amanhecer, amanhecer
Às vezes peço a ele que vá embora
Que vá embora

Aqui se nota que a violência é constante, seja em noites depois de sair ou mesmo com chuva lá fora, e a vontade que tudo se acabe faz o grito se tornar desespero, onde o maior desejo é que o agressor vá embora.

Camila
Camila, Camila

Um grito. É como se camila procurasse em seu nome uma saída, um achamento de si mesma.

Eu que tenho medo até de suas mãos
Mas o ódio cega e você não percebe
Mas o ódio cega

Aqui a certeza que a violência não é só psicológica. Imagino o medo daquele ódio infundado de uma pessoa que deveria nos amar e só agride.

E eu que tenho medo até do seu olhar
Mas o ódio cega e você não percebe
Mas o ódio cega

Imagina ter medo até de olhar para a pessoa e desse olhar vir o motivo para a próxima agressão?!

A lembrança do silêncio
Daquelas tardes, daquelas tardes
Da vergonha do espelho
Naquelas marcas, naquelas marcas

O silêncio aqui se caracteriza no medo da pessoa agredida em buscar ajuda, em se sentir incapaz de gritar por socorro.
E não conseguir se olhar no espelho e ver ali as marcas da agressão, se sentir até de certa maneira culpada pelo que está passando. Esse é um dos poderes da agressão psicológica, nos fazer acreditar que temos culpa pela agressão sofrida.

Havia algo de insano
Naqueles olhos, olhos insanos
Os olhos que passavam o dia
A me vigiar, a me vigiar

A maneira com que ela é vigiada traz a certeza de um descontrole emocional do agressor, um ódio, um desequilíbrio mental. Se sentir vigiado em cada passo, em cada gesto.

Camila
Camila, Camila
Camila
Camila, Camila

Gritos de desespero, de angústia, de dor, de desesperança.

E eu que tinha apenas 17 anos
Baixava a minha cabeça pra tudo
Era assim que as coisas aconteciam
Era assim que eu via tudo acontecer

Ainda jovem e sentindo na pele e na alma toda a dor de um relacionamento abusivo. Um medo que faz com que ela perca até a coragem de olhar o mundo de frente, daí a visão de olhos baixos, submissos, tristes e incapazes de pedir ajuda.


Apesar de fazer parte do surgimento do Rock no Brasil e ter sido cantada até sem nem mesmo se ouvir direito a letra essa música vem sendo reproduzida até hoje como um tema atual, um grito sobre violência doméstica. Aquela agressão que pode acontecer na casa do lado, e que nos cega. Até mesmo reparar nos detalhes da vida de outra pessoa pode ser preciso, até porque a mulher que sofre esse tipo de violência precisa de ajuda e nem sempre ela consegue pedir. Daí os altos índices de Feminicídio que estampa os jornais do nosso dia a dia. Que as Camilas de hoje consigam a ajuda necessária para fugir das mãos dos agressores que deviam dar amor e só dão dor. Fiquemos atentos aos sinais de toda e qualquer violência contra a mulher!




Artista: Nenhum de Nós
Compositor: Sady Homrich / Carlos Stein / Thedy Corrêa 
Álbum: Nenhum de Nós 1987

6 comentários

  1. Sabe Leninha!
    Na época nem pensávamos que era um pedido de ajuda, marcado pelo sofrimento.
    O ritmo de rock e o refrão tão gostoso de cantar, nos envolvia e nem pensávamos no tamanho da dor de Camila...
    Hoje com nossos olhos mais voltados para a agressão feita a mulher e o feminicídio, podemos perceber a angústia e a tortura por qual Camila passou...
    cheirinhos
    Rudy

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    1. Concordo totalmente com você, Rudynalva.
      Cantávamos essas canções com uma inocência, que era de encher os olhos na época, mesmo sem saber a profundidade por trás. Hoje, o amadurecimento nos faz ver sob outro prisma e até mesmo refletir sobre. Saudade dessa época, que não volta mais.

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    2. Éramos tão inocentes, tão apaixonados pela vida e pela liberdade de nos expressar que nem víamos o quão importante era o grito de Camila. Mas hoje esse grito é ouvido e a música é cantada para o que veio, alertar.
      Mas que na nossa época esse olhar inocente era tão bom, tão bom.

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    3. Pois é, Carlinha. Era tocante nossa inocência. Hoje já mais doídos podemos ver o qual importante foram as letras dos rocks nos anos 80.
      Beijo para as duas!

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  2. Olá! Difícil é saber que ainda temos tantas Camilas passando pela mesma situação, apesar de tanto tempo ter se passado. Impossível também, não soltar a voz com o refrão e talvez dar aquele empurrãozinho que a “Camila” precisava para “acordar”. Eu sou completamente apaixonada pelos anos 80 e como ele foi generoso em nos apresentar tanta banda e músicas incríveis. Essa é mais uma que faz parte da minha playlist e já estou aqui na expectativa pelos próximos posts.

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    1. Gostar das músicas dos anos 80 é bom, mas ter vivido o nascer do Rock Brasil, ter ido a shows no meio da rua desses ícones imortais (o que eu fiz com muito prazer), não tem preço.
      Que nosso grito de CAMILA, tenha despertado e ajudado alguns...
      Bjokas

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