O Fim de Eddy - Édouard Louis


O Fim de Eddy é o relato visceral de um jovem nascido e criado no interior da França, em uma comunidade regida por normas patriarcais e machistas. Uma narrativa autobiográfica tocante, crua, poética, entregue. Uma história que atravessa o leitor com palavras afiadas, precisas, que objetivamente nos coloca em um mundo de incontáveis brutalidades que deixarão marcas para a vida.

Contrariando tudo que esperavam dele - que fosse durão, "macho" - Eddy sofreu inúmeras violências: na escola ou em casa, se via obrigado a moldar-se, a fingir ser alguém que não era, a reinventar uma existência para que ele próprio, o pequeno e frágil menino que queria mais dançar ballet que jogar futebol. Essa sua maneira de existir que cerceava sonhos, aniquilava o brando da infância, foi aprendida como se aprende a andar, de forma tátil e quase que obrigatória.

Ele aprendeu a sobreviver desde sempre. A engolir ameaças, a se calar, aprendeu a reprimir desejos, e num ato desesperado de se salvar, aprender a reproduzir essas violências nele e em outros.
Com uma narrativa sufocante, passagens precisas e num tom confessional, o autor nos leva a seu mundo, passeia conosco pela sua infância, suas relações, por suas descobertas, sua adolescência, seus medos constantes, sua pobreza.

Ao tempo em que expõe todas as fragilidades, preconceitos - de todos os tipos - e disparidades sociais da comunidade em que vivia.

Não é um romance fácil, mas a leitura nos torna pele. Pontuada por pouquíssimos diálogos, quase sempre temos a sensação de que estamos dentro da cabeça desse narrador angustiado, que encontrou na escrita uma maneira de cicatrizar.

Provoca, causa repulsa, mas permite que sejamos ele, nos põe em contato com o âmago de sua humanidade. Também tem muitos gatilhos, então é preciso lê-lo cautelosamente. Não é fácil, a narrativa pede pausas para respiros, mas é necessário entregar-se para que se compreenda.

Boa leitura!

O fim de Eddy, romance autobiográfico de uma das mais proeminentes vozes da nova literatura francesa, desvela o conservadorismo e o preconceito da sociedade no interior da França. De forma cruel, seca e sufocante, a violência e a amargura de uma pequena cidade de operários se contrapõem à sensibilidade do despertar sexual de um garoto, estabelecendo um paralelo direto com as experiências do próprio autor.


3 comentários

  1. Olá! Definitivamente não é uma leitura fácil, mas muito necessária, poder mergulhar em todos “os percalços” que nosso protagonista enfrentou é uma ótima maneira de aprender um pouco mais sobre a vida e sobre esse mundo/sociedade ainda tão amargurados em que estamos.

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  2. Não vou nem chamar de resenha tudo que li acima. É quase um desabafo, um apelo para que todos possam ler e mergulhar na vida de Eddy.
    Não somente pela vida,pelas dores, pela negação de si mesmo que ele teve que enfrentar, mas pela luta atual de tantas pessoas que até hoje precisam se esconder de si próprias, por culpa da família, sociedade.
    Como não conhecia o livro, com toda certeza, já quero demais sofrer com Eddy!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na flor

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  3. Ronaldo!
    Mesmo que seja uma escrita visceral, crua e verdadeira, deve ter sido catártico para o autor, conseguir expor tudo que passou em sua vida, tendo de manter uma outra personalidade que não a sua real e toda a angústia que viveu.
    cheirinhos
    Rudy

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