Horror Adentro – Oscar Nestarez

Imersos em cenários cotidianos que se desdobram em horripilantes acontecimentos, os  contos de Horror Adentro exploram a vida mais comum dos seus personagens: um turno de vigia noturno, uma zeladora da academia, um cobrador de ônibus em sua última corrida, um homem que se hipnotiza por uma mulher de vermelho.

Bebendo em fontes do horror clássico, Oscar Nestarez cria tramas instigantes e originais, que conduzem o leitor por um labirinto de certezas incertas; tudo está muito além do que aparentemente parece. E o que parece é apenas um contorno do que pode se tornar. 

Muito diferentes entre si – ao tempo em que carregam uma mesma essência – as histórias são repletas de “acidentes de percurso”. O mais surpreendente talvez seja mesmo essa imprevisibilidade de onde o conto parte até onde ele pretende chegar – literalmente, expresso na escrita, e metaforicamente, no próprio exercício imaginativo do leitor.

Os contos, cada um à sua maneira, reinventa uma escrita própria, se conta como se deve ser contado. Um triunfo do autor. Há contos arriscados em uma linguagem de mensagens instantâneas, outros contados pelo olhar de uma criança, contos em primeira, outros em terceira pessoa. Tudo é arriscado e dá certo.

Mas nem todos os contos são expressamente tenebrosos. Se em alguns temos um horror expresso e descrito, outros se dispõem a oferecer um medo mais sutil e subtendido: é o próprio leitor que, à sua experiência e medo, completa o cenário.

Em Mamãe não está – particularmente o meu favorito – temos uma mãe que certo dia se porta esquisita e é contado por uma garotinha (com um final interrompido no tempo certo). Horror Adentro, conto que dá título ao livro, acompanhamos uma atmosfera cinza, pinta com palavras precisas, com descrições que desafiam a concretude dos atos. Sombra Antiga brinca com os medos do leitor, com o escuro, com o que está no suspense velado.

Leitura recomendadíssimo, principalmente para quem gosta do gênero. É um livro muito original, com uma prosa potente que, embora beba em autores consagrados, consagra seu próprio autor. Um prato cheio e dos melhores – pode ser um gosto meio ácido, mas inegavelmente saboroso.
Boa leitura!

Leitor e descendente, entre outros, de Poe, Lovecraft, Baudelaire, Lisle-Adam, Quiroga, Nestarez aprendeu a lição dos mestres e soube percorrer uma senda própria, que não desdenha do cotidiano da metrópole paulista mas nem por isso deixa de propor voos mais ousados, numa poética autoral iniciada com seu primeiro livro de contos, Sexorcista e outros relatos insólitos, noturnamente reflorescida neste Horror adentro.
Nos treze contos do novo livro, detectamos algumas reminiscências do anterior (temáticas e estilísticas), especialmente no que toca ao plano das sensações dos lugares, das relações entre o insólito e o erotismo, do estranhamento em países longínquos, do cotidiano prosaico que ganha ares sobrenaturais, das potencialidades sugeridas pela música e uma série de outros motivos que vão consolidando seu percurso autoral.
Chama-nos a atenção a maneira pela qual consegue desenvolver a contento as ideias mais esdrúxulas, ou seja, os temas e os recursos estilísticos/genéricos de que lança mão. Nestarez prende o leitor até a última linha do conto, curioso para ver como se dará o desenlace da narrativa. E este é sempre recompensado (...).

André de Sena, crítico literário.

6 comentários:

  1. Aquele tipo de resenha que eu adoro e precisei ler duas vezes!! Amo muito contos e amo mais ainda quando eles são assim, de terror e medo!
    E como não conhecia o livro e nem o trabalho do autor, já vou atrás!!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na Flor

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  2. Ronaldo!
    Pelo que entendi, tem horror, porém não é de terror, é mais voltado para um thriller que mexe com as experiências pessoais de cada leitor e pode trazer observações diferentes para cada um.
    E que bom que ouve ousadia na escrita.
    cheirinhos
    Rudy

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    1. Ronaldo é uma caixa de surpresas, no momento que vem resenhar poemas doces, crônicas sobre o cotidiano aí ele vem e nos surpreende com um horror, esses que já assusta pela capa.
      #Medo

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  3. Olá! Confesso que esse é aquele tipo de leitura que não me agrada nada, nada! O gênero definitivamente não faz meu estilo e mesmo que seja aquele terror/horror “mais leve” eu prefiro não arriscar!

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    1. O gênero também não me apetece, mas é sempre bom mostrar que existe mais fora da caixinha. Acredite, tem gente que ama e adorou a dica. Massa né?!
      Bjokas!

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