Prisioneiras – Drauzio Varella

Último volume da chamada “Trilogia do Cárcere” – precedido por Estação Carandiru e Carcereiros – Prisioneiras encerra a saga de Drauzio Varella, médico com anos de experiência na prática da profissão em cadeias brasileiras, pelas agruras do sistema prisional nacional. Em tese, pelo menos. Seu trabalho, em termos práticos, continua.

O que ele aqui vai tratar como uma espécie de espelho do consagrado Estação Carandiru, é uma investigação em observância que faz ao tempo em que exerce a medicina em um complexo penitenciário feminino. Embora traga histórias já conhecidas por quem leu os volumes anteriores, Prisioneiras é original a seu modo e pode ser lido como um livro independente.

Trazendo para o centro da narrativa tanto o espaço físico sufocante da geografia da cadeia, quanto as histórias particularizadas de cada uma das mulheres, o autor se lança o desafio de também ser ele um personagem dessa empreitada, que em tempo acontece enquanto a gente lê. E nada mais justo do que aclamá-lo por tal feito: o livro consegue tratar do assunto com responsabilidade, sensibilidade e com um olhar único e necessário para entendermos toda a complexidade que se dá em cada um dos capítulos.

São essas histórias as que importam. A de pessoas que, quase sempre relegadas ao aprisionamento e cerceamento do convívio social, acabam por encontrar vias de subsistências às quais são mais impostas do que escolhidas. Não por acaso temos histórias de mulheres que entram no crime ainda crianças, outras são colocadas por responsáveis legais, enfim.

Ler este livro é se dar conta de que o problema do sistema penitenciário brasileiro está muito além do que é discutido nas aulas de Direito ou no que é diariamente veiculado pela imprensa. A realidade das cadeias e de como seu funcionamento interno dita o funcionamento de toda uma sociedade, movendo-a instante a instante, é escancarado aqui de forma objetiva, com poucas imprecisões ou interferências.

E é um documento histórico importantíssimo para que entendamos que o confinamento, a ressocialização e tudo que está envolvo nesse universo é de inteira responsabilidade de todos. Drauzio expõe aqui, como nos outros dois volumes que tratam do tema, a necessidade de tomarmos esse problema como nosso porque nos afeta e porque, sobretudo, estamos lidando não apenas com prisioneiras, mas com o contexto social que vem junto a ele – e com suas famílias, filhos, enfim.

Obra necessária e de valor inestimável para nossa História e literatura. Se tiverem a chance de ler, não percam.

Boa leitura!

4 comentários:

  1. Dráuzio vira e mexe está nos noticiários. E sim, de forma positiva, mas há ainda aqueles que preferem jogar pedras a tentar entender o valor que esse médico e esse ser humano tem na nossa história.
    Um serviço de médico sim,mas antes de tudo, de ser humano, que acolhe, abraça e cuida dos que precisam.
    E oh, esse livro é um achado hoje em dia. Sempre quis ler, depois de Carandiru, mas nunca o consegui. Aqui onde moro não tem sebo ;/
    Mas ainda tenho muita esperança sim, de conseguir ler um relato tão essencial sim, a todos nós, que de certa maneira, muitas vezes, somos presos em nós mesmos!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na Flor

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  2. Olá! Acho que esse é aquele tipo de leitura obrigatória sabe, ainda mais escrito por uma pessoa tão sensata e admirável como é o Drauzio Varella. É sempre inspirador ver (ler) um pouquinho mais do trabalho incrível que ele faz no Brasil e mais importante ainda é entender um pouco melhor esse lado B da vida de milhares de pessoas que muitas vezes não tiveram escolhas, enfim, esse é aquele tipo de livro que a gente lê e passa adiante para alcançar o máximo de leitores.

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  3. ola Ronaldo
    Ainda nao li nenhuma obra do Dr Drauzio
    na verdade nao lembro de ter visto alguma resenha dos livros dele
    deve ser uma leitura bem impactante visto que o dr presenciou toda a situaçao real dos presidios
    é mais que um livro
    e um documentario que nos revela aquilo que nós sequer imaginamos que aconteça
    algo que foge completamente de nossa imaginaçáo
    dica anotada

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  4. Ronaldo!
    Devo concordar com Dr. Drauzio, porque o problema é de todos nós, entretanto, como não está tão perto de nós, acabamos ficados 'cegos' e não percebemos o que elas passam dentro do presídio e acabamos culpando apenas os governantes, quando é um caso social.
    Deve ser um tremendo documentário.
    cheirinhos
    Rudy

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