As coisas que perdemos no fogo – Mariana Enriquez

Com uma narrativa de horror que mescla o cotidiano fatídico e banal ao mais profundo absurdo do inexplicável, Mariana Enriquez consegue, em As coisas que perdemos no fogo uma proeza incontestável: fisgar o leitor tanto pela curiosidade quanto pelo disparate das cenas que precisamente descreve passo a passo, quase como em uma cirurgia de palavras.

Confesso que não esperava tanto do livro – daí a surpresa com tudo que a autora conseguiu. Ir para uma leitura despido de expectativas nos dá um certo resguardo na armadilha do inesperado (o que conta pontos para quem lê e para quem escreve, em certa medida). Neste livro, devo dizer, conta-se os dois e ninguém sai perdendo.

Nos dozes contos narrados nas quase duzentas páginas, é possível perceber que Enriquez tem uma precisão muito legítima no que diz respeito a todos os cenários e enredos que cria. Com uma escrita objetiva, ela pouco se preocupa em dar voltas ou criar distrações para o leitor: cada estória é o que é e o que se pode tirar dela – o resto cabe à experiência pessoal de cada leitor.

Este ano li muitos livros de contos – e muitos contos aleatórios, é verdade – mas acho que As coisas que perdemos no fogo tem uma essência muito única. A meu ver, o mais interessante quando se tem em mãos um livro com essas narrativas mais curtas, é entender que aqueles contos certamente (não em todos os casos, mas em boa parte deles) não foram escritos para serem reunidos em um volume.

Cada um, a seu modo, é solitário, tem uma existência autônoma, não precisa de outros que o sustentem. Claro que aqui isso é também bastante notório; porém, fico com a impressão de que eles foram concebidos para compartilharem o mesmo espaço de páginas. 

É muito reconhecido os traços, as formas e os personagens. Não estou dizendo que são estórias que se repetem incessantemente, ao contrário; toda ela, separadamente, dá conta de contar um caso macabro, de dar arrepios, de inquietar o sono. Só que os contos reunidos nos dão uma sensação familiar muito presente, como se eles se costurassem em um grande fio narrativo.

O cotidiano é a matéria principal de cada conto. A vida que acontece em um bairro pobre de uma Buenos Aires desigual, o vizinho que suscita a curiosidade de uma vida suspeita, a mulher que não aguenta mais o marido, o fantasma que volta como se numa vingança velada e até a própria vingança voltando-se por quem a planeja cometer. Tudo isso é lapidado pelas mãos velozes de uma autora que bebe de uma objetividade sem perder a sensibilidade que cabe à literatura – seja para contar qualquer estória.

Se eu recomendo? Vocês já devem imaginar: o livro é um prato cheio para mim; a temática nem se fala. Minha única queixa é só comigo mesmo: ter deixado o livro esperando tanto tempo para ser lido. Não cometam esse erro!

Boa leitura!

Macabro, perturbador e emocionante, As coisas que perdemos no fogo reúne contos que usam o medo e o terror para explorar várias dimensões da vida contemporânea. Em um primeiro olhar, as doze narrativas do livro parecem surreais. No entanto, depois de poucas frases, elas se mostram estranhamente familiares: é o cotidiano transformado em pesadelo.
Personagens e lugares aparentemente comuns ocultam um universo insólito: um menino assassino, uma garota que arranca as unhas e os cílios na sala de aula, adolescentes que fazem pactos sombrios, amigos que parecem destinados à morte, mulheres que ateiam fogo em si mesmas como forma de protesto, casas abandonadas, magia negra, mitos e superstições.
Uma das escritoras mais corajosas e surpreendentes do século XXI, Mariana Enriquez dá voz à geração nascida durante a ditadura militar na Argentina. Neste livro, ela cria um universo povoado por pessoas comuns e seres socialmente invisíveis, cujas existências sucumbem ao peso da culpa, da compaixão, da crueldade e da simples convivência. O resultado é uma obra ao mesmo tempo estranha e familiar, que questiona de forma penetrante e indelével o mundo em que vivemos.

3 comentários:

  1. Uma autora argentina? Puxa..eu confesso que ainda não tinha lido ou visto nada sobre este livro,mas como amo contos, estou aqui já doida para conferir cada um destes doze contos!
    O cotidiano, nossa vida, nossa história, sempre renderam as mais diversas divagações, mas assim, na forma trágica sempre foi muito pouco usado.
    Viver é doce e macabro, já dizia alguém por aí!
    Lista de desejados com certeza!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na flor

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  2. Ronaldo!
    Li muitos livros e contos esse ano também e dos mais variados temas.
    E ver que a autora argentina conseguiu trazer o terror e o amcabro do cotidiano para seu contos, me deixou curiosa e com vontade de apreciar esse ineditismo.
    cheirinhos
    Rudy

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  3. Olá! Taí um dos poucos gêneros que eu não curto muito, as palavras “macabro”, “sangue”, entre outras, sempre me fazem querer correr para as colinas. Sei lá simplesmente não funciona comigo, até já me arrisquei com algumas histórias, mas sem muito sucesso, afinal não dá para ler de olhos fechados neh (risos). Por se tratar de contos, talvez as doses (assustadoras) sejam mais leves? Ai ai ai Yukito acho que não vai ser dessa vez que vou me aventurar por esses páginas (#sorry).

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