As Filhas do Capitão – María Duenas

As Filhas do Capitão é, antes de qualquer coisa, um livro sobre a humanidade dissecada no meio da desordem. Eu poderia também dizer que é um livro sobre a força dos abandonados, sobre a difícil cruzada de ser estrangeiro em uma pátria distante ou sobre as transformações que mudanças bruscas podem ocasionar, porque, afinal, é também uma narrativa sobre tudo isso.

María Duenas cria um romance épico que germina em um cenário estadunidense no ápice dos anos 30, tece personagens que de tão palpáveis em suas personalidades parecer criar vida e avançar para fora do livro tão detalhada é sua narrativa. Talvez, nesse ponto, eu me detenha especificamente nesse que é, a meu ver, o ponto mais marcante da história: a maneira como ela é contada.

Através de uma descrição minuciosa, que não fosse talento tornaria cansativa e desnecessária, a autora desenrola uma série de tramas que vão se alinhavando página a página. Ao expor seus personagens em fragilidades peculiares, María Duenas sopra vitalidade em seus modos de agir, em seus diálogos, em suas cenas.

A história gira em torno de três irmãs - Luz, Victoria e Mona - e sua mãe, mulheres que têm a vida modificada depois que o pai e marido morre em um trágico acidente de Porto. O homem tinha acabado de abrir um tipo de pub chamado El Capitan, um projeto falido que andava de mal a pior.

A morte dele ocasiona uma série de acontecimentos que definiria o futuro das mulheres: sozinhas em um país estrangeiro, vivendo a saga infrutífera de sobreviver na selva de concreto que é Nova York, tão diferente da terra que deixaram para trás.

O resumo é o básico dos básicos, mas sintetiza bem o espírito do livro, que é verdadeiramente essa busca pela sobrevivência, essa luta para se manter firme quando as coisas fogem ao controle, essa reinvenção, mudança brusca.

A autora é muito feliz porque, ao mesmo tempo em que não foge do propósito de contar as histórias dessas mulheres, o faz com uma maestria narrativa impecável. De fato algumas pessoas poderão achar que o livro é grande, robusto, até pelo peso que a autora mensura em cada palavra. Cheguei também, por vezes, a achar que ela estava dando voltas ao explorar coisas que, a princípio, pareciam desnecessárias ao contexto geral da trama. Mas não, avançar na leitura nos permite perceber a importância de cada detalhe como uma complexa rede que dá consistência ao enredo.

As Filhas do Capitão me fez resgatar o gosto pelas narrativas grandes e épicas, enormes, dessas que a gente não tem vontade de largar, tão familiarizado estamos com os personagens. Não é uma leitura fácil, admito, mas ela também não foi pensada para o ser, então é absolutamente compreensível.

É um livro forte sobre mulher, sobre emigração, sobre sonhos - sobre sonhos que nos dizem não serem possíveis - e sobre como o sentimento de pertencimento está não apenas ligado ao que nós esperamos, mas ao que nós nos dispomos a aceitar.

Nova York, 1936. A pequena taberna El Capitán é inaugurada na rua Catorze, um dos redutos da colônia espanhola que então reside na cidade. A morte acidental de seu proprietário, o inconsequente Emilio Arenas, força suas indomáveis filhas a tomarem conta do negócio, enquanto nos tribunais é negociado o pagamento de uma promissora indenização.
Abatidas e atormentadas pela necessidade urgente de sobrevivência, as temperamentais Victoria, Mona e Luz Arenas irão trilhar seus caminhos entre arranha-céus, compatriotas espanhóis, adversidades e amores, determinadas a transformar um sonho em realidade.
De leitura ágil, envolvente e tocante, “As filhas do capitão” acompanha a história dessas três jovens forçadas a atravessar um oceano, se estabelecer em uma deslumbrante cidade e lutar para encontrar seu caminho. Uma homenagem às mulheres que resistem quando os ventos sopram em sentido contrário e a todos os que viveram - e vivem - a aventura, muitas vezes épica e quase sempre incerta, da emigração.

Um comentário:

  1. Considerado chato sim, por muitos leitores, ao contrário, eu adoro estes livros que trazem esse ar de passado em suas páginas! Não somente pela luta das mulheres, no caso deste livro acima, mas pelas diferenças de épocas.
    É como pegar um túnel e cair lá atrás, tanto em costumes, jeitos e trejeitos, como também,na maneira de escrever e isso é fascinante!!!!
    Como não conhecia o livro, estou encantada com o que li acima e vou fazer de tudo para poder conferir esta obra com "arzinho" de clássica, o quanto antes!!!
    Beijo

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