Na minha pele - Lázaro Ramos

Talvez a melhor maneira de começar a falar sobre um livro seja descrevendo suas potencialidades, sua capacidade de estabelecer um diálogo com o leitor, de fazer imergir no relato, na narrativa, destruir qualquer que seja a barreira, fazer pensar, ecoar essa história e tocar, emocionar.

Na minha pele, livro do Lázaro Ramos – que se mostra tão bom escritor quanto ator – parece ter sido construído com uma despretensão tão deliberada que o faz bom pelo manejo de uma autobiografia (não é uma autobiografia, se alguém pensou que seria) deslocada para uma questão mais profunda, maior do que qualquer experiência particularizada.

O livro é, mais do que qualquer outra coisa, um importante relato sobre a questão da raça no Brasil. Um experimento literário de reflexão que, em tempo, parte do micro para o macro, Lázaro fazendo-se ouvir a voz de uma comunidade por tato, por empatia, um convite aberto a entender o outro se transformar através dele.

O autor, a todo momento, faz questão de também enfatizar sua busca pelo entendimento do seu papel na escrita do livro – inclusive e principalmente seu lugar de fala, de onde ela parte, onde se cruza com outras, em quais momentos ele precisa recuar para deixar que outros discursos se ergam, falem por si mesmos.

É por isso que a obra é tão forte, escrita ao longo de anos (ele relata parte do processo, a odisseia desde o embrião que o gerou) e tão necessária: sua competência de trazer a tona temas tão socialmente efervescentes, de retratar uma problemática tão atual, de buscar um passado para entender o presente e construir um futuro. É isso que torna Na minha pele tão intenso e essencial.

Mas, há muitas outras questões abordadas pelo Lázaro. Embora o título evoque o que parece ser a questão central da narrativa, o fio condutor, o autor também empreende sua própria cruzada para entender esses conceitos de raça, de ocupação de espaço no mundo, de corpo, beleza, raízes. Raízes. O livro é, eu diria, esse chamamento para encontrar as raízes, sobre a importância que essa investigação – não fácil – tem para que entendamos quem somos e para onde vamos.

Estruturalmente, a narrativa é o ponto chave, o que faz as engrenagens do livro funcionarem perfeitamente. O anseio narrativo, o desdobramento dos casos, vêm como lembranças, acontece no instante em que estão acontecendo. Ora vindo, ora indo, as lembranças do Lázaro vamos se fazendo enquanto ele mesmo reflete sobre o que escreve, não há uma cadência cronológica e muito menos uma sequência casual – as coisas seguem um ritmo próprio, que à princípio soam altamente aleatórios, mas ganham corpo, consistência, à medida que o livro se forma.

Na minha pele é esta voz, é este corpo, é essa discussão. É esse deslocamento, esse vestir-se do outro, essa pele que cobre o corpo, esse corpo que habita o mundo, esse mundo que é cheio de particularidades, firmezas e algumas vezes – muitas vezes – injustiças.

Boa leitura!
Movido pelo desejo de viver num mundo em que a pluralidade cultural, racial, étnica e social seja vista como um valor positivo, e não uma ameaça, Lázaro Ramos divide com o leitor suas reflexões sobre temas como ações afirmativas, gênero, família, empoderamento, afetividade e discriminação.
Ainda que não seja uma biografia, em Na minha pele Lázaro compartilha episódios íntimos de sua vida e também suas dúvidas, descobertas e conquistas. Ao rejeitar qualquer tipo de segregação ou radicalismos, Lázaro nos fala da importância do diálogo. Não se pode abraçar a diferença pela diferença, mas lutar pela sua aceitação num mundo ainda tão cheio de preconceitos.
Um livro sincero e revelador, que propõe uma mudança de conduta e nos convoca a ser mais vigilantes e atentos ao outro.

4 comentários:

  1. Eu amei de paixão esse livro. Sempre admirei o ator, mas depois que o li, passei a admirar o ser humano, o homem.É mesmo uma otima leitura

    Abçs
    Ana Paula
    Paixão por Leituras

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  2. Ronaldo!
    Tem livros que nos fazem repensar nosso comportamento de maneira geral, principalmente quando o preconceito está envolvido.
    Infelizmente ele (o preconceito) nos é incutido desde a infência com mínimas brincadeiras, com comentários sarcásticos, com atitudes impensáveis; nem percebemos que tudo aquilo vai entrando em nosso subconsciente e de repente, nos vemos ‘repetindo’ as mesmas atitudes. Um nojo!kkkk
    É tudo tão osmótico que nem percebemos.
    Imagino o que deva ter sentido ao ler as impressões do Lázaro Ramos. Tenho a maior vontade de ler.
    E só para deixar registrado, não admito em pleno século XXI ter preconceito de qualquer espécie… Acho um absurdo!
    cheirinhos
    Rudy

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  3. Mesmo não sendo tão fã do trabalho do ator, gosto muito da pessoa Lázaro Ramos. O cara consegue ser autêntico até passeando na rua e eu gosto muito disso.
    Quando este livro foi lançado, fiquei maluca para ler ele.Mas o tempo passou e acabei foi esquecendo. Mas tudo que li na época de positivo sobre esta obra, foi muito esclarecedor.
    Não é sobre racismo, é sobre ser a própria pessoa. Sobre ser alguém!
    E ainda espero com toda certeza, ler o livro sim!!!
    Beijo

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  4. Olá Ronaldo!
    Adorei seu modo de ver o livro, eu tenho muita vontade de ler exatamente por ser escrito pelo ator que tanto admiro como pessoa e pelo talento, já está na minha lista aguardando uma oportunidade.
    Bjs!

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