Um café com Adélia ou a poesia mora na Bagagem

Ler Adélia Prado é como mergulhar num poço sem fundo – na verdade, é mais como se jogar de um penhasco: a euforia, a coragem e a incerteza do que vai acontecer depois. É como um café quente que a gente toma rápido e queima a boca. É como abraçar um desconhecido por acaso – ou pelo simples ato de abraçar.

Sempre disse para mim mesmo que poesia era coisa difícil. Que precisava estar preparado, disposto e, acima de tudo, pronto – não apenas preparado, mas pronto. Não sei exatamente quando comecei a ler poesia, e antes de mais nada queria dizer que isto não é uma resenha específica de autora ou obra, como pode sugerir o título. Não.

Uso o exemplo da Adélia Prado e do livro Bagagem porque foi minha mais recente experiência com esse troço chamado poesia. Com esse bicho que morde a gente e sagra sentimento, mas não findo. Poesia. Vou repetir muito a palavra para parecer mais palatável (não sei a relação que vocês têm com ela).

Peguei Bagagem como quem não quer nada – esperando um mundo, é verdade, mas com uma despretensão que aprendi a exercer quando estou prestes a ler alguma obra poética. Afundei em Adélia. Comecei exatamente pelo começo de Adélia: sua Bagagem.

Bagagem é sobre sua fé no Divino. É sobre ela observar a vida pela janela pequena da sala. É sobre sexo, sexo e amor, sexo e amor e tudo que acontece entre uma coisa e outra. Bagagem é a reunião de experimentações de mundo que te faz mergulhar num poço sem fundo e se jogar de um penhasco sentimental e não esperar o café esfriar e não ter medo de abraçar o outro.

E falar assim não é nada mais que falar das minhas próprias experiências de leitura da poesia: com outras obras, outros autores, outros temas. No final, eu sempre acabo tendo sensações parecidas – com trejeitos diferentes, mas ainda assim parecidas.

Claro, já peguei poesias que não causaram nada em mim (talvez seja por isso que eu tenha desejado que este texto não fosse uma resenha do livro da Adélia Prado). Porque aqui não estou falando do tecnicismo da poesia, mas de sua função no espectro do subjetivo, do que cada um sente. Aí não dá para dizer se é bom ou ruim, apenas que algumas pessoas se identificam mais com uma que com outras.

Com Adélia eu senti tudo. E agora, com a língua ainda cicatrizando de ter bebido sem esperar esfriar nas mãos, escrevo aqui para dizer: se deem a oportunidade de ler poesia. Mesmo que trave, mesmo que você não tenha gostado de cara, mesmo que não pareça tão bom assim de princípio.

Você pode sentir o gosto e nunca mais querer parar. Espero que aconteça!

Um comentário:

  1. Amo poesia e me arrisco a desenhar algumas letras as vezes. Mas falar de Adélia é complicado. Ela tem esse poder de nos jogar dentro da vida dela, que ao mesmo tempo, se torna a nossa vida. Já não são mais as letras dela, mas as nossas, manchando o papel com nossas dores, amores e vidas.
    Não é bagagem propriamente dita, somos nós!
    Pena que muitos ainda passem despercebidos pelas obras dessa mulher fantástica!
    É por isso que gostei do blog desde que o conheci. Não é apenas a literatura em si, é um se jogar no poco do conhecimento e literatura de verdade é isso!
    Obrigada!!!!
    Beijo

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