A gente dá certo – Leonardo Antan

Se você é alguém que viveu o ápice da virada dos anos 90 para os anos 2000, precisa ler esse livro. Se você ama musicais, gosta de histórias de amor nostálgicas e foi/é fã de Sandy e Júnior, precisa ler esse livro. Se você acha que uma narrativa autenticamente brasileira é como tomar um café quente em um dia frio... bem, você precisa ler esse livro.

Dizem as boas línguas que A gente dá certo é um tipo de musical literário. Eu não poderia discordar, mas acrescentaria: é um musical literário cinematografado. Em medidas certas, dosadas precisamente como um diretor conduzindo um filme de roteiro reinventado, Leonardo Antan sabe conduzir sua narrativa com tons habilidosos. Ele não apenas conta uma história, ele puxa sua mão e te faz entrar de cabeça na noite que marcaria para sempre a vida de Juliana e Rodrigo.

Embora Juliana não seja das mocinhas mais adoráveis e Rodrigo seja o arquétipo de um príncipe encantado do século XXI aos avessos (nenhum elogio incluso nessa observação), o leitor aprende a gostar deles quando as situações vão se desenrolando, quando as músicas vão aparecendo, quando eles próprios se mostram abertos a vivenciar o apenas uma noite.

Confesso que me custou um tanto de paciência ter que lidar com as imaturidades dos personagens – como alguém com 25 anos pode agir assim? –, mas não foi difícil deixar que o embalo acontecesse. E é exatamente isso: o livro é sobre ter o gostinho dos dois devagarinho, regado vez ou outra por uma música que calha bem à narrativa, banha a situação numa melodia que torna quase impossível desgostar do enredo como um todo. E isso porque eu nem poderia começar a falar dos personagens que pincelam a narrativa vez ou outra.

A gente dá certo é bom porque o autor sabe do que está falando, conhece a história que quer contar. E é uma bonita, despretensiosa, leve, com um risco ou outro daquelas dorzinhas que quem já teve um grande primeiro amor conhece bem. A noite de nostalgia dos protagonistas enveredam por uma trilha que chega a confundir o leitor se não é ele mesmo vendo sua história nas páginas no livro (acho um grande feito).

Leonardo brinca com a convencionalidade da astrologia (aloka dos signos), joga com as predeterminações concebidas dentro das identidades de gênero, de como a gente se reconhece no mundo. Sem falar na própria trilha sonora – sério, a narrativa é uma experiência que não se basta nas páginas: ouvir a playlist é um convite a caminhar pelas ruas de um Rio de Janeiro que serve de diário para quem está disposto a viver um amor.

Minha única ressalva (um incômodo que não atrapalha a leitura, mas não pode ser negligenciado) é a maneira como parece inverossímil algumas situações, falas e posições de pessoas que têm 25 anos. Às vezes é inevitável que o leitor se pergunte até que ponto alguém agiria daquela maneira naquela situação. Talvez Rodrigo e Juliana precisassem parecer menos rápidos e ríspidos na construção – embora eu também tente entender que o autor criou um ritmo bastante próprio, se testou nesse lance de assumir que seu romance fosse um musical literário (o que, vendo assim, me parece genuíno).

No mais é leve, é sobre amar, ser livre, jovem, ter o coração ferido e viver uma grande aventura numa noite com o choque do que não pode ser mudado no passado, o que está acontecendo no presente e as possibilidades de futuro. Por quê você deveria ler? Para além desses motivos, porque é brasileiro, tem identidade, tem gosto daqui, sabe? E é bom sentir o gosto do Brasil nas páginas de um livro. Ainda mais de um autor tão jovem e potencialmente capaz de escrever seu nome a longo prazo na literatura que a gente produz – e que não deve nada a qualquer outra.

Boa leitura!

Juliana e Rodrigo já foram amigos de infância, mas hoje são apenas dois desconhecidos que se reencontram em uma festa, depois de dez anos separados. No passado, eles viveram uma história de amor conturbada, mas hoje não conseguem sequer se reconhecer nos olhos um do outro. Na busca de resgatarem um romance conturbado, iniciam uma conversa nostálgica, tendo como trilha sonora os clássicos musicais da MPB e dos anos 2000. Recriam assim, aos olhos dos leitores, um delicioso musical literário, repleto de referências, mesclando canções e sentimentos para dar a nota perfeita.
Em um confronto emocional entre o passado e o presente, o que ainda restará deles? Será que o amor que eles deixaram para trás ainda existe ou é apenas uma lembrança agridoce?

4 comentários:

  1. Se é leitura nacional, já merece um aplauso.
    Se é um romance leve e descontraído? Merece dois aplausos.
    Agora cá entre nós, se além de ter os dois pontos citados acima de quebra, traz uma trilha sonora que pode ser vivida e toca em nossa mente quando as cenas vão desenrolando, merece todos os aplausos do mundo.
    Sou da época dos anos 80,90 e já fiquei curiosa em relação a isso. Nada como pegar uma história e a ir construindo pouco a pouco na mente. No mais, pode se ter 70 anos, o amor deixa todo mundo meio besta mesmo.rs então, nem dá para estranhar que personagens tão maduros cometam tantos errinhos bobos.
    O amor, somente o amor.
    Vai para a lista de desejados com certeza.
    Beijo

    ResponderExcluir
  2. É tão bom e raro ler uma crítica tão habilodosa e precisa com elogios e observações pertinentes. Obrigado demais! Espero que esse musical ainda embale muitos outros leitores!

    ResponderExcluir
  3. Oi Ronaldo!
    Não vivi essa época dos 90 aos anos 2000 mas tive ainda minha fase de Sandy e Junior.
    Acho que o que acontece realmente é isso, não existe uma mocinha ou mocinho perfeito, mas não é por isso que não vamos desgostar deles. E que fantástico eu acho essa capacidade do autor criar personagens imperfeitos, que muitas vezes nem agradáveis são mas ao mesmo tempo nos fazer gostar do que lemos. Entendo que realmente a gente passa raiva pensando puts porque esse personagem fez isso, mas na vida é o que acontece mesmo. Até hoje eu pergunto porque algumas conhecidas ainda fazem algumas bobagens com 24 anos.
    Falar sobre signos? Amoo
    Adoro quando leio livros com trilha porque nos faz nos conectar mais ainda com a história e com o mundo que ela envolve.
    Mas apesar das críticas dos personagens, e que eu provavelmente passarei raiva lendo, no geral eu adorei a história. Quem não gosta de uma boa história de amor? De acompanhar tudo que vem com ela, desde a alegria, euforia e até o coração partido.
    Com certeza ver um autor nacional escrevendo algo que parece ser tão gostoso de ser ler, é muito bom!
    Parabéns ao autor e parabéns pela resenha Ronaldo, sempre muito bem construída.
    Bjs

    ResponderExcluir
  4. Ronaldo!
    Fascinada por livros regados a trilhas musicais e de forma mais teatral.
    Pensando em tudo que falou, talvez, apenas conjecturas pessoais, por ser reportado aos anos 90, os protagonistas sejam ingênuos mesmo e as tais situações que questiona devido a idade, seja por essa 'inocência' naquela época, tudo era mais calmo, sem tanta pressa, sabe?
    Gostei, vou procurar para ler.
    “Não cruze os braços diante de uma dificuldade, pois o maior homem do mundo morreu de braços abertos!” (Desconhecido)
    BOA PÁSCOA!
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA MARÇO: 3 livros + vários kits, 5 ganhadores, participem!
    BLOG ALEGRIA DE VIVER E AMAR O QUE É BOM!

    ResponderExcluir

Seu comentário é sempre bem-vindo e lembre-se, todos são respondidos.
Portanto volte ao post para conferir ou clique na opção "Notifique-me" e receba por email.
Obrigada!

Editoras Parceiras

Postagens Recentes

Visualizações

Últimos Comentários

Lançamentos