Conto: O dia que eu morri..., por Leninha

Parecia um dia como todos os outros, o clima estava ameno, mais para frio do que para calor. Um daqueles dias que você pode fazer qualquer coisa sem medo de ser pego por uma chuva, ou estar vestido demais para sentir calor. 

Minha cabeça fervilhava de coisas, era problema para todo lado, muita coisa para fazer, horários para cumprir, compromissos para cada instante do dia, eu nem sabia se teria tempo para almoçar. Agenda cheia, cabeça a mil.

Logo cedo passei por um aborrecimento daqueles e meu sangue ferveu, porque teria que refazer todo o trabalho do dia anterior. E cadê tempo para isso? Já me preocupava com a bronca que levaria se não estivesse com tudo pronto antes das seis. 

Na vida eu era apenas mais um trabalhador, porém apaixonado, mas me faltava tempo hábil para grandes declarações de amor, e como sempre fazia ficava adiando o momento de dizer “eu te amo”. Precisava anotar na minha agenda que tenho que tirar um tempo para “nós”.

As horas passam voando e ainda nem comecei a cumprir a agenda do dia. O telefone toca, mais um compromisso, talvez seja o momento que preciso tirar para olhar nos seus olhos e me declarar. Vou tentar pensar em alguma coisa para dizer que te faça abrir aquela sorriso lindo e que me recompense com um beijo, quem sabe apenas só um abraço apertado, tanto faz, vindo de você já me sinto feliz.

Decido dar aquela escapulida para tomar um café, recarregar as baterias, despertar, quem sabe fumar um cigarro na companhia de alguns amigos na salinha dos fundos. Atravesso aquele enorme corredor tão conhecido. Vejo as mesas dos colegas fervilhando de papéis, falas ao telefone. Preciso voltar logo, meus assuntos não podem esperar.

Como imaginei só tive tempo para um sanduíche na hora do almoço, preciso organizar melhor meus horários, do jeito que vai posso acabar doente. A tarde corre como em uma maratona. Quando menos espero vejo o chefe me encarando e apontando para o relógio, ele precisa daquele relatório. Pronto, tá quase pronto, só mais uma coisinha aqui. Atravesso correndo o escritório e entrego tudo antes das seis, finalmente mais um dia de serviço cumprido, ou quase.

Vejo meus colegas arrumando as coisas se preparando para ir embora, eu ainda fico uma hora mais ou menos para deixar as coisas prontas para o dia seguinte.
Acho que a falta do almoço começa a fazer efeito em mim, senti uma tontura agora há pouco, minhas vistas embaçaram. Decido ajeitar tudo para ir embora, amanhã é outro dia, amanhã eu arrumo isso.
Finalmente saio e ainda tive tempo de ver o sol se pondo, lindo como sempre. Quem dera eu tivesse tempo para admirar, mas se eu enrolar perco o metrô, e depois são mais 40 minutos de espera. Nosso compromisso tá marcado às 20h, é o tempo de chegar em casa, tomar um banho e ir ao seu encontro. Que dia!

Cara, eu não tô bem, sinto que preciso comer alguma coisa, a dor no estômago já está me incomodando. Preciso acrescentar umas vitaminas na minha dieta, tô me sentindo fraco pra caramba, meus braços pesam como chumbo.

A água escorre pelo meu rosto, um banho vai me ajudar, revigorar minhas energias, e enquanto isso penso nas palavras doces que pretendo te dizer, quero te emocionar, quero te fazer sorrir. 
Me apresso para atravessar a rua, sei que a essa hora você já está me esperando no restaurante, atrasado mais uma vez. Definitivamente preciso ir ao médico, essa dor e esse cansaço não parecem normais, preciso me cuidar. Corro para atravessar a rua, sinais fechados para mim, e então acontece...

Uma dor de escurecer as vistas, tudo gira ao meu redor, não sinto forças para me manter em pé. Vejo o chão se aproximando do meu rosto, não sinto a dor ao bater a cabeça, só uma dor lancinante no peito que parece que vai me partir ao meio. Vejo rostos ao meu redor. Pessoas gesticulam nervosas, outras apontam o celular para mim. Pessoas saem das lojas num alvoroço, alguns carros param, tudo por mim, tudo porque uma pessoa caiu no meio da rua. E esse corpo que agora jaz no chão atrapalha quem passa. Os carros que tentam desviar não querem saber quem sou, querem apenas ganhar tempo. As pessoas que gesticulam pedem passagem, as vendedoras das lojas chamam de volta os clientes que saíram para olhar aquele fato incomum... atrapalho o tempo das pessoas.

Não consigo articular nenhuma palavra. Os sons vão se distanciando dos meus ouvidos, não consigo lembrar das palavras que ensaiei durante o banho para te dizer, e agora sinto que jamais as direi, faltou tempo para te encontrar. Faltou tempo para almoçar. Não deu tempo de procurar um médico. Não consegui te ver mais uma vez, minha boca não disse as palavras que te fariam sorrir. Faltou aquele minuto no tempo...

Tudo está escuro. Sinto meu coração nas pontas dos dedos batendo acelerado, depois mais lento, e mais lento até que para. Precisava de mais tempo, assim como muitos, só mais um dia... mas agora acabou. Não restou um segundo.
O dia em que eu morri foi assim. E assim como para muitos talvez falte tempo...

19 comentários:

  1. Em uma época em que se pensa em controlar o tempo sem, contudo, gerir a vida, a temática do texto é providencial. Gostei da ideia da narrativa conter um só personagem às voltas com sua própria consciência. Se permite, penso que vale reproduzir a história em terceira pessoa. De forma sutil, o tempo teria um papel de destaque pesando sobre o fluxo de consciência do protagonista e a intervenção de fatos exteriores e outros personagens traria novos pontos de vistas para a narrativa. Enfim, é só uma ideia. Continue contando histórias, Leninha!

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    1. Adorei a sugestão Vivi, vou pensar com cuidado e carinho na forma de reproduzir o texto em terceira pessoa.
      Bom ter você aqui sempre.
      Bjs

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  2. Será que teremos uma nova escritora despontando? Escritora de drama? Gostei muito, Leninha. Não tenho o hábito de ler contos e por isso não saberia dar uma opnião sobre a estrutura dele. Mas gostei muito da narrativa. As imagens ajudaram a dar uma carga de dramaticidade à rotina deste homem e à sensação do quanto ele está descontente vivendo no "automático"; do quanto ele parece amar esta mulher que ele não teve chance de reencontrar naquela noite. Os detalhes casuais que você narra demonstra que o DIA DE NOSSA MORTE pode se dar desta forma: em meio a uma rotina enfadonha e cansativa (como poderia ocorrer em meio a um dia excitante e inesquecível). Este homem morreu na expecativa de amar mais e de demonstrar mais esse amor. E esta é a lição que tiro do conto, como dizia o poeta Renato Russo: "É PRECISO AMAR AS PESSOAS COMO SE NÃO HOUVESSE AMANHÃ... PORQUE SE VOCÊ PARAR... NA VERDADE NÃO HÁ... TEMPO." Beijos, querida! Parabénssssss!

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  3. Você escreve muito bem! Adoro suas resenhas e vou amar ler outros contos e futuros romances. Vou lá, Leninha. Beijokassss

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    1. Obrigada Lu, sua opinião é muito importante para mim. Amei as sugestões e segui algumas. Fez todo a diferença.
      Beijos e seja sempre bem-vinda.

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  4. Esse texto me fez refletir muito na escolha fiz... um trabalho que agrada, estimula e desafia, mas que não deixa tempo para as pequenas coisas tão necessárias em nossas vidas. Ótimo texto Lena e obrigada por esse momento de reflexão.

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    1. Fico feliz que tenha feito você refletir, espero que consiga conciliar o trabalho ao prazer de viver.
      Bjs

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  5. Eita Lena!!
    Sempre arrasando na escrita.
    Sou fã.
    E que venha o livro!

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  6. Leninha!
    Nem sabia que era escritora também e se imaginasse que escrevia, com toda certeza seria um romance, não esse conto tão esclarecedor e com mensagem verdadeira.
    Precisamos colocar 'o pé no freio' vez por outra, viver mais e com intensidade os momentos fora do trabalho, cuidarmos de nós mesmos e acima de tudo, dizer mais vezes EU TE AMO!
    Caso contrário e tempo da morte chega e não fizemos nada do que desejámos e não nos divertimos o quanto queremos e não amamos os que nos rodeiam...
    Lindo conto!
    Desejo uma ótima semana de luz e paz!!
    “É prova de inteligência saber ocultar a nossa inteligência.” (François La Rochefoucauld)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA novembro 3 livros, 3 ganhadores, participem!

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    1. Pois é, Rudy, eu escrevo contos já a algum tempo aqui no blog. E por mais romântica que eu pareça meus contos são sempre dramas, pode isso?!
      Depois dá uma conferida no slide, tem a página Contos by Leninha, daí você poderá ler outros textos meus.
      Bjs

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  7. Oi, Leninha.

    Há anos acompanho suas crônicas, seus textos por aqui.

    E continuo afirmando que você devia dar asas a sua imaginação e deixar fluir. Ainda sonho em ver um livro escrito por você, sensibilidade você tem de sobra. Só deixar esse dom vir à tona.

    Gostei muito da dramaticidade da história e também da reflexão que esta história nos traz.

    Devemos aproveitar cada instante desse dom precioso que Deus nos presenteou, que é a vida. Porque é algo efêmero, algo que passa como uma nuvem além do horizonte.

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    1. Que seu sonho se torne realidade um dia, Carlinha.
      Concordo com suas palavras, temos que viver e aproveitar cada instante da vida, ela é só uma, né?!
      Bjs

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  8. Oi Leninha,
    Gostei do texto, ficou bem focado e direto em relação aos sentimentos do personagem, chega ao final sem muita pressa.
    Acho que deveria focar em escrever, você leva jeito.
    Abraços

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  9. Texto bem escrito e atual, por isso, muitas pessoas se identicarão com o personagem principal.

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  10. Oi Leninha,
    Nossa, você estava muito inspirada quando escreveu o texto, hein?! Espero que sempre dê asas a sua imaginação, amiga!

    Beijos,Lu
    Blog: Apaixonada por Romances “A leitura é uma porta aberta para um mundo de descobertas sem fim.”

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  11. Gostei bastante de texto, você tem uma ótima escrita! Parabéns!
    Incrível como sempre deixamos de fazer e dizer várias coisas pois achamos que vamos ter mais tempo.
    Por isso é importante viver cada momento!

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  12. Leninha, parabéns!
    Tenho que dizer que no momento estou vivenciando um pouco do que o conto diz, triste dizer isso, mas realidade. Tempo correndo, percas, tudo mto depressa ...
    Adorei o conto!
    Beijos

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