A comunidade LGBT na literatura

E é com muito prazer que recebo esse ano pela primeira vez, esse amigo tão querido, futuro e muito promissor autor a quem chamo de Ronaldo divo. Meu querido, foi uma honra ter um texto seu aqui no blog, quando você se tornar famoso eu terei esse texto para mostrar. Fique à vontade que o espaço é seu.


Caio, Levithan e os escritos que me fizeram descobrir o amor.

A primeira vez que li sobre o amor entre duas pessoas do mesmo sexo não faz muito tempo. Não faz muito tempo que li, mas há muito havia sido escrito. Por quem? Imagine só, Caio Fernando Abreu. Lá nos anos 80, quando a homossexualidade era vista com olhos mais rigorosos e desconfiados, estava Caio em toda sua glória dizendo: “eu sou gay”. Escrevendo. Quando a ditadura militar colocava cabrestos de “boa conduta” e “moral”, Caio colocava Raul e Saul em uma trama sobre amor e descoberta. “Aqueles Dois” foi uma das primeiras histórias que me reconheci; foi a primeira vez que vi uma insinuação amorosa entre dois homens, que, potencialmente, se apaixonaram um pelo outro.

Aqui, me propus a falar sobre a comunidade LGBT na literatura, mas, mais do que tratar disso de uma distância considerável, quero que vocês percebam o quão importante é para nós uma representação legítima e autêntica. Digo NÓS. Até pouco tempo atrás não era comum que estivéssemos nas prateleiras – seja através de autores declaradamente homossexuais, seja pelas próprias tramas. Nos anos 80, Caio escrevia e abria uma brechinha para que entrasse o ar que hoje oxigena a variedade de livros com temática LGBT que estão ganhando espaço no mercado editorial.

É porque nossa história é mesmo construída por brechinhas e tijolinhos. Aliás, toda história de qualquer grupo minoritário – não quantitativamente, a propósito. Mas fato é que lá atrás Caio lutava abertamente uma batalha que ainda hoje travamos: ocupar espaços. Se agora podemos ver qualquer livro escrito por autores LGBTs ou que tenham tramas que enveredem por esse caminho, devemos um bocado ao Caio. Não apenas a ele, mas cito-o pela coragem de peitar o preconceito em uma época tão sombria e porque dos mais antigos é o que mais conheço a obra – e que obra!

Depois dele outros pararam em minhas mãos. As palavras do David Levithan, por exemplo. O primeiro livro que li do autor foi Garoto Encontra Garoto. Lembro-me bem do momento exato em que abri a primeira página e li o primeiro parágrafo: o reconhecimento imediato foi tão significativo que me vi em lágrimas por saber que aquela história tinha muito a ver com o que eu sentia e não havia nada de errado com isso. Ver-nos na literatura, através de palavras que nos relatam, é como saber que somos capazes de qualquer coisa.

Era uma narrativa jovem, cheia de sonhos, aventuras, lágrimas e muitos, muitos corações adolescentes partidos – de dois garotos que se amavam alucinadamente. Lindo, libertador e representativo: me vi, nos vi e soube que por mais que ainda me olhassem torto na rua, por mais que na escola me chamassem de veadinho, ali, nas páginas daquele livro, eu era só um garoto que gostava de outros garotos – e. não. havia. nada. de. errado. com. isso.

Depois eu li muitos outros. Não vou citá-los para que esse relato não se perca em prolixismos, porém, acho importante citar o Caio e o Levithan como meus dois padrinhos da literatura LGBT. Um me ensinou que podemos ser corajosos até quando o medo de ser quem somos nos engole – Caio, muito obrigado; outro, me disse: toma, você precisa ler histórias protagonizadas por você – Levithan, suas palavras são muito, MUITO importantes para mim.

Ainda lutamos para sermos respeitos, representados e amados. Lutamos para amar, veja; na justiça. Sem amarras ou quaisquer outros impedimentos. Uma luta diária e suada. Agora mesmo, enquanto escrevo esse texto, luto para ser lido, postado e espero que esse texto chegue até você. Porque quero que você me escute e lute ao meu lado. Hoje posso ler histórias sobre homossexuais porque lá atrás lutaram para escrever e publicar. Porque lá atrás foram corajosos por mim.

Se hoje tenho esse espaço para ser postado, lido e compartilhado, quero dizer: essa luta é tão minha quanto sua. Leia nossa literatura. Procure livros em que estejamos. Dê essa literatura. Ofereça para as crianças. Faça também nos conhecerem através das palavras. Porque tenho esperança de que, cada vez mais, estejamos presentes nas prateleiras e gêneros. Tenho esperança que nossa literatura seja mais do que “Literatura LGBT”. 

Obrigado Caio; obrigado Levithan; obrigado autores que se propõe a contar nossas histórias – por viverem ou por observarem. Precisamos de vocês. E continuaremos precisando enquanto o preconceito escrever matérias tristes sobre nós nos jornais.
As palavras são formas bonitas de transformar o mundo. Vamos usá-las bem.



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3 comentários:

  1. Ronaldo!
    Acredito que aos poucos a literatura LGBT vem tomanco seu espaço no mundo literário, embora como tenha falado, já há muito alguns escritores disertem sobre protagonistas d gênero, mesmo sem serem reconhecidos.
    Leviathan é um dos que conseguiu abrir mais janelas e portas para esse gênero literário e o admiro muito por isso.
    Já li alguns outros escritores nacionais, inclusive mulheres, que tão bem nos apresentam a esse universo e espero, além de desejar, que cada vez mais espaços sejam aberos através da literatura e sem preconceitos.
    Parabéns por seu lindo texto esclarecedor.
    Semaninha de muita luz e paz!
    “Todo o nosso saber se reduz a isto: renunciar à nossa existência para podermos existir.” (Johann Goethe)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE OUTUBRO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

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  2. Lindo o que vc escreveu Ronaldo. É muito importante conhecer/ discutir, muitos eventos com propósito de promover a causa LGBT acho que mais atrapalham que ajudam e tenho minhas dúvidas quanto a certas atitudes mas é imprescindível que se aborde o tema.

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  3. Vez por outra dou um pulinho no blog,pego dicas( Claro!!rsrs...) e saio de fininho. Mas fiquei encantada com a coluna de hoje, pois lembrei que foi justamente a literatura, mais especificamente o livro Giovanni de James Boldwin, que fez com que perdesse a ignorância e o preconceito em relação à comunidade LGBT. Eu devia ter uns 14 anos e pude perceber que o amor ia muito além do sexo e do que ditava a sociedade.
    Já adoro o blog e agora estou ainda mais encanta por presenciar a sensibilidade dele de abrir oportunidades para a diversidade literária.

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