Uma coluna para chamar de minha, com Vivi Lima

Não é novidade que estamos a enfrentar um momento delicado na história de nosso país. É dentro desse contexto que trago o texto de hoje.  Dentre os muitos manifestos produzidos recentemente, um tem deveras me preocupado, a saber:  a censura velada da opinião. Preocupo-me porque tenho visto muitos discursos que a separam da tomada de posição. Fico a imaginar em que contexto possa haver uma tomada de posição desvinculada da opinião. 

Ora, toda tomada de posição implica o investimento de ideias, opiniões e experiências significativas. Talvez o que se queira dizer é:  não dê opiniões sem embasamento, as dê com sabedoria e coisa e tal. Mas, a depender de qual lado se toma partido, qualquer opinião é desqualificada sem sequer passar pelo crivo de uma análise racional. Portanto, há algo de muito errado nesse discurso o qual traduzo como o banimento da discordância.

Sinceramente, não entendo. Se tenho, inclusive, a liberdade de não me obrigar a ouvir o que outro tem a dizer, porque abrir mão disso matando a dissonância e reduzindo o mundo a mim mesma? Não seria um mundo muito cheio...de mim?

É preciso esvaziar-me para ampliá-lo. E descobrir que nele há portas e janelas. Saídas pela esquerda e pela direita. Para cima e para baixo.  Que atrás daquela montanha enorme à vista, está outra montanha. E mais outra. E mais outras. Que, além do que vejo, existem camadas e camadas de realidade que, aos poucos, vão se esclarecendo; que torna possível o seguir em frente, apesar de mim.

E isso não equivale a desconstruir minha identidade ou abrir mão dos meus combates, a não ser que me dite a consciência.  Confesso que muitas coisas nessa vida acirram o meu ânimo, sim. Em um nível pessoal, mexem com meus brios as interferências sobre as quais não pedi conselho. Afinal, não sou uma democracia. O que não posso é converter o particular em geral e passar a considerar-me acima da vivência com o outro.

Enfim, diante desse quadro pra lá de complicado, como salvaguarda de mim mesma, tenho buscado ser tardia em me irar. Pacificar-me, é uma boa tradução disso.  O que assumo não ser fácil. Mas, tomem isso como medida de autocontrole visando a preservação da alma.

No mais, eu só quero viver num mundo em que eu possa discordar do outro de forma franca e aberta. Sem reservas, desde que respeitados os limites da lei; sem ter que privar meu coração da leveza. Afinal, se eu não me conformo ao mundo, é natural que o mundo não se conforme a mim.

Tenhamos calma:

"Deixe quem desejaria mudar o mundo mudar-se primeiro a si mesmo" (Sócrates)

É um processo.

Até a próxima!

6 comentários:

  1. Sabedoria, respeito ao contrário e equilíbrio. Eis a base de tudo!

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  2. Adorei o " não sou uma democracia " é bem isso, parece que não podemos discordar de nada muito menos ter uma opinião diferente. O discurso é de que devemos mudar o mundo, como se fôssemos obrigados a isso, quando ter uma vida simples e tranquila, sem mudança fosse errado.

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    1. Oi, Elane, exato! É tipico de quem carrega a intolerância total e completa dentro de si não compreender que é humanamente impossível que duas pessoas concordem em tudo. O confronto de ideias é sadio, mas pelo que tenho visto, são poucos os que se predispõem ao debate. Infelizmente, há muitos pombos enxadristas por ai. Abraços!

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  3. Isso aí, amiga e guru querida! Muita calma nessa hora, já que "la cosa se queda peluda"... :/
    Beijossssss

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