Memórias de um Casamento - Louis Begley, por Sueli

Memórias de um casamento é um mergulho profundo nos meandros de uma classe e seus privilégios, numa trama que se desenrola entre Paris e Nova York, Long Island e Newport. Vivendo o luto da perda da esposa e da filha, o octogenário Philip reencontra uma mulher deslumbrante de seu passado: Lucy de Bourgh, a herdeira que foi uma jovem apaixonante e conquistou muitos homens, incluído o próprio Philip. Porém, à medida que ela revela os detalhes sórdidos de seu casamento falido com Thomas Snow, um homem de origem simples que ascendeu na vida, Philip irá descobrir verdades que o levarão a rever suas concepções sobre as pessoas que conheceu, admirou e desejou.

Embora eu não tenha o costume de reproduzir partes dos livros que leio, penso que “Memórias de um Casamento” é o livro apropriado para eu utilizar esse recurso.

Senão, vejamos a opinião do narrador, na página 157, a respeito de suas qualidades literárias e analíticas sobre os livros que lê:

“Se eu era capaz disso, não podia garantir, por razões que não deixam de ter relação com a forma como leio e escrevo. Por exemplo, nunca pensei saber, “sobre o que” é um romance...”

E, foi exatamente neste ponto que eu me vi pensando sobre o quê estava lendo...

Claro que fiquei interessada pelo livro, como sempre, por causa do título intrigante. Afinal, radiografias de casamentos, sejam ficcionais ou não, sempre me interessam. E, a história de Lucy De Burgh, nascida em uma família tradicional de Rhode Island, herdeira de uma importante fortuna, me deixou intrigada desde o princípio.

A história é contada de forma ininterrupta e em primeira pessoa por Philip, um escritor famoso, que ficara viúvo há pouco tempo, e que havia sido muito feliz em seu casamento com Bella. Phillip conhece Lucy De Burgh em sua juventude, uma mulher tão fascinante, quanto contraditória, e voltar a encontrá-la de forma casual é para ele motivo de angustiante curiosidade.

Obcecado, Philip vai em busca da verdade dos fatos que transformaram essa mulher exuberante, em uma megera alcoólatra, amarga e cruel. E, o que ele fará quando completar esse quebra-cabeça, e com a teia de informações que recolhe em seu caminho é o que nos mantêm ligados.

Um romance denso, sobre a história de uma mulher inquieta, selvagem e que se entregou aos prazeres sem medo, em uma época em que a hipocrisia da sociedade americana destruía quem se atrevesse a sair dos padrões impostos. 

Será que realmente mudamos?

Leonard Mlodinow em seu livro “O Andar do Bêbado” nos diz, logo de cara, que a intuição humana é mal adaptada a situações que envolvem incerteza.

E, o que é mais incerto que a vida?

Mais a frente, Mlodinow esclarece que é uma balela dizermos que nossas vidas são feitas de escolhas. E, ele completa dizendo que escolhemos as saídas mais viáveis para cada situação. E, Lucy, personagem feminino central, de Begley, embora nem sempre tenha agido acertadamente, agiu de acordo com as demandas de seu corpo e de seu coração.

Você poderia culpa-la?

Não é um romance fácil. Não é uma história bonita. Lucy é uma Madame Bovary do século XXI. Uma predadora incansável, que não desiste  até o fim!

Eu esperava uma história real, que me fizesse pensar, e acabei como Philip, incapaz de fazer uma resenha coerente a altura do livro de Louis Begley, mas o importante é que reconheci Lucy em várias mulheres que encontrei ao longo de minha vida.

Recomendo com louvor, mas apenas para leitoras em busca de uma ficção não tão distante da realidade.
05 estrelas.

Sueli Jansen é professora aposentada, casada há mais tempo que consegue lembrar e, hoje vive no interior do estado do Rio de Janeiro, com sua família, seus livros, suas árvores e seus animais.
Você a encontra no Skoob clicando AQUI.




12 comentários:

  1. Sueli, é muito bom conhecer histórias com uma notação acentuada de realidade. Às vezes precisamos levar um tranco na alma, né? E histórias assim, ao que me parece, cumprem bem essa função, talvez pouco ou nada intencional, de nos levar a uma reflexão motivadora de mudança. Gostei muito do que você contou aí na resenha. Dica anotada. Beijo grande!

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    1. Oi, Vivi, é sempre uma delícia encontrar você, viu?
      Pois é, como sempre, eu comprei esse livro por causa do título... Imaginei que estaria indo para Paris e acabei em Alepo! :O
      Fiquei tão envolvida pela história contado por Philip, o narrador, que perdi a coerência...
      Eu tenho uma enorme de necessidade de fantasia, mas não consigo ficar muito tempo longe da realidade. E, fiquei muito perturbada com Lucy De Burgh, uma mulher com possibilidades e que é covardemente manipulada por homens cínicos e poderosos.
      E, foi justamente aí que pensei até que ponto somos - nós, as mulheres - realmente donas de nossa vontade.É uma história feia, sobre homens feios e uma mulher que pensou que era dona de sua vida.
      Um livro para ler e pensar.
      Beijão, minha querida e obrigada pelo comentário.

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  2. Sueli um livro cumpre seu objetivo ou que quer que seja, ao nos levar indagar sobre nossas próprias vidas. Gosto de tudo um pouco, e admito, que as mulheres que muitas sofreram em seus casamentos; e, as que eu conheço, se omitiram, foram tratadas como lixo e ali ficaram se sentindo usadas e morrendo aos poucos - até que o câncer a levou; outra suporta um marido que desfaz dela, e a gente sente que ele mal a suporta e ela lá fingindo que não está nem aí, e pousando de família feliz. Triste. E eu? Eu fugi, e fui mais feliz com ele longe e hj somos "quase" bons amigos. Os retratos de casamento nos, nos encantam, e nos fazem voltar no tempo e pensar o que aconteceu na vida deles? Há algumas fotos tão lindas que dá gosto em olhá-las, mas o que será que se esconde no verso de cada uma?
    Como sempre amo suas resenhas. bjs

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    1. Ah, Lucimar, o comentário que fiz sobre esse livro está longe de fazer jus ao romance que li.
      Foi como ter os dois lados da mesma moeda devassados diante dos meus olhos. Se nós mulheres somos vítimas, até que ponto contribuímos para isso?
      Ou, como podemos ser sabotadas por homens cruéis e que atravessam nossos caminhos, em algum momento de nossas vidas.
      Foi desconfortável perceber que não temos todas as opções que imaginamos. Que nossa liberdade pode cerceada sem que tenhamos conhecimento.
      Um livro desconcertante, onde vítimas e culpados se mesclam com a mesma intensidade.
      Vale a pena conferir, minha querida amiga.
      Obrigada por estar aqui.
      Bjks para todas e para a Berenice também! ;)

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    2. Vou atrás depois e obrigado pelas lembranças a Berenice

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  3. Olá =D

    Nossa,não sabia que a Sueli também resenhava aqui no blog...que legal que ela resenha aqui,pois ela têm uma sensibilidade incrível para escrever!

    De cara,a sinopse já me deixa um pouco atrapalhada sobre o tipo de enredo em si,e a proposta do autor,ainda mais que nunca li nada dele...Então,consigo entender,de certa forma quando a Sueli fala,que foi incapaz de fazer uma resenha coerente,pois o livro me parece ser bem hummm,talvez confuso no que realmente está propondo.

    Mas de qualquer forma,por tudo que foi dito, o que consegui abstrair foi essa personalidade livre da Lucy,embora polêmica e fora dos padrões sociais da época, que mesmo supercialmente condenamos,no fundo acabamos nos identificando ou relacionando suas atitudes com de outras pessoas que vimos.

    E no fim o que penso é: o que vale mais,andar na linha da sociedade,do padrão correto,e acabar sucumbindo suas vontades e seu próprio eu á um padrão,OU desviar dessa linha,e assumir suas própria vontades,seus anseios,seu verdadeiro eu??!! Será que ela viveu mais intensamente assim? Será que ela era consciente das consequências desde o início?

    Bom,fica para pensar,pois de qualquer forma,toda atitude, têm um resultado,então que estejamos preparados para as consequências!

    Saindo um pouco desse assunto,fiquei bem intrigada de como o autor desenvolveu esse romance entre os protagonistas,pois me parece que ambos têm uma bagagem muito grande,e uma diferença de estilo de vida e pensamentos também bem distintas,então quando eles se reencontraram e souberam a fundo da história um do outro deve ter sido um choque de realidade,e no fim aprendizado para cada um... Está aí,um livro que me deixa já intrigada,de antemão!

    Bjão

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    1. Daniele, eu ando em um momento complicado, então, de vez em quando, a Aurilene me prestigia com um convite para participar do desse blog bacana.

      Para começar, Daniele, é um romance escrito por homem, o que faz toda a diferença, e que além de tudo é jornalista. Então, o relato é de uma crueza desconcertante. Podemos dizer, que é frio e desconfortável, porém muito instigante. Somos conduzidos a uma sociedade hipócrita e sexista.
      Eu recomendo caso você fique curiosa, que você não deixe de ler. E, se puder podemos conversar sobre esse romance que me deixou muito inquieta.
      Obrigada por deixar esse recado gentil, Daniele.
      É uma alegria conversar sobre livros com leitores generosos como você.
      Beijão!

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  4. Livros assim não fazem muito a minha cara talvez porque eu tenha a noção de que a mensagem passada pelo autor nao me toque do modo que deveria, não por não compreender o texto, mas poe nao ter a vivacidade necessária para o sentindo me alcançar. Mas eu admito que me interessei pela história e acho que vale a pena dar uma olhada nela talvez eu possa me surpreender de maneira positiva.

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    1. Rissia, permita-me ousar lhe dizer que embora o livro tenha partes que eu mesma não tenha compreendido totalmente, por incapacidade cultural, é um relato tão cruel e verdadeiro, que mais que qualquer outra coisa, serviu com alerta sobre a grande diferença entre gêneros.
      Não deixe de ler. Você pode até não gostar, mas vai valer a pena.
      Obrigada por seu comentário,
      Boa semana, bjs!

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  5. Olá, Sueli!

    É curioso um livro dizer que a vida não é feita de escolhas e sim das saídas que tomamos para os problemas que a vida nos impõe. E se pensar bem, ela impões problemas todos os dias, seja na nossa vida pessoal ou no trabalho e até mesmo no amor.
    Poderia até mesmo comparar a Lucy com o Gastby do romance de F. S. Fitzgerald, pois ambos ousaram se entregar ao que vida tem de melhor em uma época que só as aparências contavam e quando se viram privados daquilo que permitia fazer isso tudo, viram o seu mundo acabar e se tornarem meros fantasmas do que eram antes, o que até mesmos nos dias de hoje é bem real.

    Um abraço!

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  6. Gostei muito do seu exemplo!
    A meu ver, Gatsby não tem opção... Seu amor por Daisy torna todo o resto inviável. O único caminho para Gatsby, desde que vira Daisy ainda muito jovem, foi a realização do seu sonho de amor.
    Você acredita que Gatsby faria outra escolha além de tentar conquistar Daisy, quando pensou que seria possível?
    Eu acho que não.
    O Andar do Bêbado, de Leonard Mlodinow, não é um romance. É um estudo filosófico, portanto, sujeito a muitas interpretações. De vez em quando, eu dou uma olhadinha e encontro pérolas como essa, e outras, que para mim faz todo sentido.
    Obrigada pelo seu cometário.
    Boa semana, bjs!

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