A mão esquerda da escuridão - Ursula K. Le Guin, por Koudan

Para muitos essa é uma das mais belas histórias de ficção científica já escrita, e para quem não conhece e tem interesse em começar a ler esse gênero, está aqui um bom início. Os fãs de fantasia sem dúvida gostarão, pois em muitos aspectos, a história lembra muito o mundo de Tolkien, eu particularmente me lembrei do livro Silmarillion desse autor. Partirei de dois pontos fundamentais do livro para tentar prender sua atenção até o final desse post, se não gostar dos dois pontos apresentados, acredito que não terá interesse no restante, então vamos entrar no longínquo mundo da autora Ursula K. Le Guin, A mão esquerda da escuridão.

A história se passa num planeta distante chamado Gethen, ou Inverno como chamam os homens da Terra. Simples, o clima dele se divide em inverno glacial e um inverno ameno, mesmo estando em outras estações; para a perspectiva de um terráqueo, ele é extremamente gelado.

Os habitantes de Gethen são humanos, mas sua fisiologia é diferente da nossa. Claro! Você deve pensar, ele é mais resistente ao frio e blábláblá. Certo, isso também. É muito mais marcante, pois eles possuem os dois sexos, macho e fêmea e aqui está um dos cernes dessa história.

Estamos a milhares de anos no futuro e a nossa humanidade (sim, há outras), já possui contato com muitos mundos povoados, o livro menciona em torno de oitenta e cinco. A maioria destes planetas está organizada numa espécie de ONU intergaláctica, (mencionarei isso no final), chamado de Conselho Ecumênico ou Ecúmena, e o representante desse conselho, Genly Ai, um terráqueo, chega a Inverno com proposta de adesão.

A narrativa se alterna entre o terrestre e um nativo de Gethen, Estraven, e é interessante ver a mesma história em alguns trechos, de pontos de vistas diferentes.
Aliás, diferença é o que é mais trabalhado nesse livro. Como dito, o povo de Inverno possui os dois sexos, seria um tipo de androginia: eles passam a maior parte do tempo numa forma assexuada, sem ser macho ou fêmea, e em ciclos, que ocorrem a cada mês, eles assumem um gênero conforme o nível hormonal de seu parceiro. Funciona assim, quando estão em kemmer, o nome do estado de mutação, se eles tocarem num outro indivíduo cujo nível hormonal masculino esteja mais alto, o outro assume a forma feminina e vice-versa. Isso gera situações às vezes cômicas, por exemplo, quando o rei está grávido.

Como um dos protagonistas é terrestre, e tem seu gênero já definido, isso gera estranheza e preconceito perante aquele povo. Pois para um ge-theniano aquilo era tido como depravação e perversão. Eles entendiam que se tratava de um alienígena, mas ainda sim fica bem pontuado isso em várias passagens. Acho bom ressaltar aqui, sem intenção de spoiler, mas para situar você, que na história há aqueles que se utilizam de substâncias para ficar em estado de kemmer permanente, esses são meio que tolerados pela sociedade, como acontece no caso do homossexualismo.

Gethen é um planeta que conhece eletricidade, ondas de rádios, ou seja, possui uma similaridade cultural com a Terra, porém, é mais “atrasada” tecnologicamente; e não acaba aí. Há muitas outras, como um sistema monárquico em algumas regiões e em outras, sistemas de governo do tipo “parlamentarista”. Esse é outro ponto importante, pois o enredo se desenvolve tendo esses dois “países” como ponto axial.

Os oitenta e cinco planetas citados possuem tipos de humanidades, inclusive numa passagem breve o protagonista teoriza que um desses mundos – Hain, poderia ter iniciado a vida em todos outros, o que explicaria a presença de humanos com características diferentes; pois é mencionado homens alados, nós, terráqueos que desenvolvemos a telepatia com auxílio de outro povo e os ge-thenianos com sua ambivalência sexual, únicos entre as humanidades catalogadas. A propósito, a autora não tenta dissimular que são humanos, percebe-se que ela quer reforçar isso no decorrer de toda a história.

Por que mencionei que lembra o mundo de Tolkien? Quando estão sendo descritos lugares ou seus habitantes, soava pra mim como a terra média: cada lugar com seu costume e modos, e os próprios ge-thenianos, me lembram os elfos devido a sua androginia, o que muda é apenas sua etnia.Uns castanhos claros, escuros e outros mais avermelhados. Serei específico, porque isso com frequência confundem as pessoas, e não estarei fugindo do livro, na verdade é uma complementação, sendo a autora filha de antropólogos. Ela demarcou essas características muito bem, inclusive com mito de criação e um léxico próprio para se referir a peculiaridades do planeta. Vamos tomar nosso mundo como exemplo, embora a diversidade étnica humana seja plural: negro, asiático, branco e suas misturas, há apenas uma única raça, que é a humana. O mesmo ocorre em Gethen.

Não é exagero daqueles que dizem ser A mão esquerda da escuridão uma história que te marca por toda vida, pois ela nos deixa pensando sobre muitas coisas do cotidiano. Ela traz em seu bojo não apenas os temas polêmicos de sexualidade, igualdade, diferenças que são marcantes na maioria das obras literárias; há outros elementos universais e sutis: amizade, lealdade e o amor, inclusive entre pessoas de mundos diferentes. Não posso deixar de mencionar sobre o título, que de tão simples é belíssimo, não estragarei a surpresa.

Numa leitura de inferência, é nítida a postura feminista da autora que advogou nessa causa nos anos 50 e 60. Eu entendo o planeta inverno como uma alegoria do pós-guerra – Guerra Fria. É bem claro também que o Conselho Ecumênico pode ser a ONU, tentando reorganizar o mundo com o sentimento de união dos povos que marcou bastante aquele período, e é claro, duas potências disputando influência: Kahide e Orgoreyn, regiões que representam EUA e a União Soviética com seus campos de concentração na Sibéria.

Bom, espero que tenham se interessado. Para quem gosta de boas histórias, vale muito a pena ler esse livro.

See you in space.

Koudan - Professor de História, Orientador Educacional e Contista, foi membro do Núcleo de Literatura da Câmara dos Deputados  e pesquisador em História oral e Mitologia greco-romana. Amante de ficção científica e animação, e leitor ávido de quadrinhos e livros.

8 comentários:

  1. Nossa, parabéns Koudan, sua resenha me deixou super empolgada para ler. Sou fã de fantasia, e, se a história lembra o mundo de Tolkien, com certeza deve ser delicioso de ler.

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    1. Oi Torie. Vai sem medo, você vai adorar, tenho certeza.

      Valeu pelo retorno.

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  2. Koudan!
    Já li o livro há um tempinho e como falou, ele é marcante e não dá para esquecer determinadas passagens.
    Gosto de ficção e aqui tem um tantinho de distopia por causa do governo dominante, etc..
    “Um amor, uma carreira, uma revolução: outras tantas coisas que se começam sem saber como acabarão.” (Jean-Paul Sartre)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP Comentarista de março com 4 livros 3 ganhadores, participem!

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  3. E uma vergonha o que vou dizer, mas nunca li nenhum livro de ficção cientifica, porém após ler sua resenha não teria como deixar de sentir interesse pela leitura desse livro. A estória e muito bem construída, que através da leitura da sua resenha tão rica em detalhes me senti como se existe esses outros planetas, com certeza me cativou, e já vou coloca esse livro na minha lista de prioridades de leitura.

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  4. Olá Lana. Faça isso, a história dele é bem rica mesmo, você vai gostar.

    Abraço.

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  5. Olá, Koudan!

    A primeira vez que tinha ouvido falar da Ursula K. Le Guin foi quando soube a Arqueiro iria lançar o primeiro livro de um ciclo (como ela chama as sagas dela) chamado O Ciclo de Terramar.
    Por isso, logo quando vi o nome dela eu já tive a sensação de que já ouvi o nome dela, mas tive que pesquisar para ter certeza se era mesmo a autora que tinha ouvido falar na Arqueiro, o que me fez descobrir que A mão esquerda da escuridão foi republicado por aqui pela Aleph.
    E o curioso é que mesmo sendo um livro escrito no período da Guerra Fria, o temas de igualdade entre os sexos continuam muito atuais e a Ursula usa Gethen como uma utopia em que Gently recebe "de volta" todo o preconceito e estranheza que a humanidade da qual ele faz parte faz com quem é diferente de seus padrões terrestres de sucesso e beleza. E ao asexuar os homens, Ursula nos faz também questionar se mesmo tendo uma igualdade entre gêneros, havera ainda espaço para a dominação de uns sobre outros e para a discórdia entre as pessoas. Isso tudo torna o livro impossível de ser ultrapassado e fácil de ser discutido entre leitores.

    Um abraço!

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  6. Olá Letiovile. Você disse tudo, é praticamente impossível dessas questões serem superadas e em alguma parte do mundo, sempre será atual.

    Obrigado pelo excelente comentário, em breve farei outras resenhas dessa autora.
    Grande abraço.

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