Musashi - Eiji Yoshikawa, por Koudan

Sabe aqueles livros, que de tão bom, você se sente órfão quando termina de ler e fica imerso numa angústia momentânea até achar outra obra que te entusiasme novamente? Essa foi a sensação que tive quando finalizei Musashi, de Eiji Yoshikawa.

Miyamoto Musashi foi um extraordinário espadachim japonês do século XVI, cuja vida é permeada de especulação e não sabemos em muitos aspectos, o que é mito ou realidade. Todavia, esse jovem guerreiro é um dos maiores exemplos de tenacidade e dedicação, além de provação dos próprios limites, físico e mental. A história de Musashi, seu espírito aguerrido, reascendeu na Segunda Guerra Mundial com os Kamikazes e está presente ainda hoje no imaginário do povo japonês. Ler essa obra é conhecer um pouco mais sobre essa cultura que parece distante e exótica para nós, mas olhada de perto, há muito mais semelhanças que diferenças.

Tentarei não ser linear, para fugir de outros artigos facilmente encontrados pela internet, e assim, apresentá-los uma personagem extremamente cativante e curiosa e em constante conflito em busca da perfeição e reconhecimento.

A obra é sem dúvida um romance biográfico que te prende do início ao fim. Seus três volumes (há edições com dois tomos), cada um em torno de seiscentas páginas, são rapidamente superadas pela forma simples e elegante com que o escritor conduz a história. Mesmo não sendo objetiva, uma característica das obras japonesas, por valorizar a beleza em pequenas coisas e em breves momentos, a fluidez dos diálogos e do enredo não a torna uma leitura cansativa, comparada a muitos escritores românticos, pelo contrário, cria um cenário perfeito e que parece interagir com as personagens e situações vivenciadas.

Musashi, filho de guerreiro não cresceu com o pai, percebe-se em suas lembranças e comentários daqueles que conheceu o velho samurai, o impacto que a curta convivência lhe causara – negativa e positiva. Outra familiar é uma irmã mais velha, Ogin, que não possui muita relevância na história do livro.

O leitor é apresentado ao mundo de Musashi, nas primeiras linhas – sangrento e com mortes prematuras de jovens e velhos – a batalha de Sekigahara. Adolescente, por volta de seus dezessete anos, (Takezo, seu nome verdadeiro) e seu amigo próximo, Matahashi Hon’i-den, participam como protagonistas de sua primeira guerra. Devo ressaltar que essa época o Japão não era unificado e suas províncias viviam embates sempre que surgia um líder mais forte cujo objetivo natural naquela época, era subjugar o outro.

Seu maior anseio era ser um samurai respeitado e conhecido, e desde muito cedo nutria amor ao caminho da espada. Determinado em sua jornada, foi odiado e caçado por inimigos e invejosos, possuía uma astúcia e percepção acima da média. Sua moral foi questionada quando exterminou um clã inteiro e um garoto de quatorze anos, mas num campo de batalha, não há moral no mundo que supera a vida.

Entretanto, sua vida não foi só feita de guerras e batalha. O livro traz na maior parte do tempo sua busca incessante pela sabedoria e pelas coisas simples do cotidiano. Conheceu o amor pela jovem Otsu, cujo papel na história é determinante em muitos aspectos e podemos dizer que está longe de ser enfadonha por mais idealizadora e romântica que ela seja. O livro apresenta ainda dois personagens extremamente cativantes e impossível de não se entusiasmar com eles: Joutaro Aoki e Iori Miyamoto, aprendizes do Musashi. O primeiro, mais travesso e inconsequente o segundo, mais preocupado e responsável. Ao passo que em ambos não faltasse o respeito e admiração para com os mais velhos e o mestre, além da coragem para enfrentar os perigos mesmo sendo crianças. Esses dois garotos são sensacionais, dão uma leveza e uma pureza à história, atenuando o risco de morte sempre presente na vida do jovem guerreiro. Os dois possuem momentos distintos na vida de Musashi, mas no momento de cada um, percebemos um lado paternal do jovem samurai ao cuidar de meninos órfãos.

Não é imprescindível conhecer a sociedade japonesa daquela época a fundo para entender a história, mas numa leitura aguçada, percebemos que toda situação há dois códigos de peso: as das regras sociais e o bushido (código do guerreiro samurai). A primeira maior por motivos óbvios, por se tratar do cotidiano o que inclui a vida dos mais simples aos mais poderosos numa sociedade conservadora; e a segunda, rígida e inflexível, na qual sua desobediência não ofenderia apenas um indivíduo, mas toda sua classe. O desenrolar de cada situação problemática o que envolvia, essencialmente, lei e honra é, em alguns casos, a tentativa de se achar um equilíbrio entre ambas, e quando o equilíbrio não é alcançado, a situação se desenrolará mais adiante com problemas adicionais e mais complicados.Talvez com isso em mente, o autor escolheu bem os títulos dos capítulos, remetendo à ideia dos elementos em conflito, até uma harmonia final entre todos.

A obra perfaz a clássica jornada do herói de uma forma mais cotidiana. E o dilema de Musashi continua atual, não só para os praticantes de artes marciais, que a propósito, é recomendadíssimo, por conta do aprimoramento constante do zanshin (conceito filosófico desenvolvido, sobretudo nas artes marciais japonesa e chinesa), mas para qualquer pessoa que busca se superar em algum aspecto de sua vida. Tenho certeza que seus personagens lhe expirarão bastante. Assim, como a generosidade do monge Takuan Souho, importantíssimo na trama, pois instruirá Musashi num primeiro momento e endossará a mudança de seu nome; sem falar é claro da megera mãe de seu amigo Matahashi, Ousugi Hon’i-den, que inferniza e calúnia o nome de Musashi por todos os cantos que passava, acusando-lhe de toda sorte de vilania. A velhinha por trás de um corpo frágil e com uma técnica letal para matar é daquelas que a gente não vê a hora de pagar pelos seus pecados. As personagens por mais ordinárias que pareçam, não são meras coadjuvantes, interagem na trama de forma determinante e na maioria das vezes, com revelações surpreendentes.

Ah, como se não bastasse a velhinha xexelenta, como toda história de herói, seria estranho se não houvesse um antagonista, e ele está lá, e o leitor corre o risco de gostar dele igualmente ou mais, que Musashi. Sassaki Kojiro, prodígio na arte da espada, criou seu próprio estilo, e rivalizava com Musashi em fama nas “cortes” e em diversas províncias como habilidoso espadachim, e um confronto entre ambos, seria inevitável.

Myiamoto Musashi em sua busca incessante pela perfeição na esgrima fez com que ele experimentasse não só a brutalidade da guerra e dos duelos mortais. Sentiu a necessidade aguçar sua mente para arte e caligrafia e nos trabalhos manuais e da lavoura. Esses ofícios o civilizou de certa forma, deixando para trás sua natureza selvagem a cada capítulo, até convergir na criação do estilo inédito na arte da espada; o estilo Nitenichi-ryū, em que são usadas duas espadas. Na literatura, seu legado foi o livro dos Cinco Anéis, um tratado do guerreiro.

Há muito pra se dizer desse bestseller mundial. Mas finalizarei por aqui na esperança de que algum dia você tenha a oportunidade lê-lo e se deliciar com uma história de: aventura, amor, drama, filosofia e superação, tudo isso será encontrado nessa obra de um garoto “selvagem” ao nobre guerreiro que nunca fora vencido.

Sua história está também em outros formatos: Cinema, com o mais famoso dos filmes sendo Samurai: o guerreiro dominante, de 1954, do diretor Hiroshi Inagaki; além de animação, documentários e mangás (quadrinhos japoneses).

Heróis não pertencem exclusivamente a uma nação, assim como os prodígios e gênios. Posso me orgulhar do Pelé ser brasileiro, mas ele e seus feitos não pertencem exclusivamente a nós, assim, são as pessoas como Musashi, elas pertencem ao mundo e seu legado é para a humanidade.

Seeya.


Koudan - Professor de História, Orientador Educacional e Contista, foi membro do Núcleo de Literatura da Câmara dos Deputados  e pesquisador em História oral e Mitologia greco-romana. Amante de ficção científica e animação, e leitor ávido de quadrinhos e livros.

8 comentários:

  1. Oi Koudan,
    Muito feliz de ver essa resenha por aqui. Musashi é um livro que sempre quis ler, mas que nunca me submeti à empreitada. Desde adolescente fui fascinado pela cultura japonesa, incluindo aí sua literatura. Esse título tá na minha lista desde que eu tinha uns 15 anos, agora, algum tempo depois me senti um pouco mal de não tê-lo lido ainda. Vou adicionar a uma das minhas metas.
    Acabei conhecendo a história do Musashi através das adaptações e da sua influência em boa parte das histórias de samurais que vieram depois nas mais diversas mídias. Mas quero muito conhecer a obra original de perto. Obrigado por me lembrar disso.
    Abraços
    Ademar Júnior
    Blog Cooltural

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    1. Ademar, você não vai se arrepender, tenho certeza. O livro é empolgante do início ao fim, e é impossível falar tudo sobre ele em poucas linhas. Mas recomendo a todos que tem interesse na cultura japonesa, ele é muito empolgante. As adaptações não ficam atrás, todas que vi são muito bacana, cada uma trabalha um dos lados do Musashi.

      Abraços meu caro e até a próxima.

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  2. Oi Koudan!
    Sou bem atraída por toda cultura asiática e o livro mostra muito do que podemos encontrar ou descobrir.
    Já tinha ouvido falar sobre a personagem, mas saber que tem um livro que explicita ainda mais toda saga vivida por ele, é bom demais.
    Vou procurar para ler.
    Parabéns pela resenha.
    “Na juventude deve-se acumular o saber. Na velhice fazer uso dele.” (Jean-Jacques Rousseau)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    Top Comentarista fevereiro, 4 livros e 3 ganhadores, participe!

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    1. Olá. Fico feliz que tenha gostado. Tenho certeza que quando começar a ler não vai querer mais parar.

      Grande abraço.

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  3. Musashi está entre os livros que ainda quero ler e apesar de ser uma figura já difundida em todo tipo de vertente como citado no texto, desde filmes a personagens de jogos de vídeo game se torna uma leitura obrigatória. Tomara que a resenha desperte o interesse em quem ainda não conhecia o maior samurai de todos os tempos

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    1. Eu também o considero uma leitura obrigatória e espero que desperte mesmo o interesse por sua história.

      Obrigado por sua opinião.

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  4. Olá, Koudan!

    O mais curioso é que além de descobri a vida de um espadachim que marcou e influenciou a história japonesa até hoje, Musashi também nos faz descobrir parte da história do Japão que muita gente desconhece. Foi lendo a sua resenha que descobri que, assim como a Itália que é um exemplo mais conhecido, o Japão possui uma tradição e história que nascem bem antes de sua unificação.
    Na verdade, toda boa história, real ou ficcional tem esse poder de transcender o tempo e as fronteiras, e quando é sobre um herói de verdade como Musashi, isso é mais forte ainda.

    Um abraço!

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  5. Oi Letiovile. Concordo contigo, a Itália é um ótimo exemplo também do imaginário coletivo. Grande abraço.

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