Uma coluna para chamar de minha, com Vivi Lima

Mesmo que não tenhamos completado o circuito do jeito pretendido, mesmo que as pendências nos induzam a iniciar o circulo vicioso das (re)promessas, é preciso saber passar. Saber que não é preciso completar o que se imaginou, tudo o que se planejou, mas, ao menos, ter tentado. Saber que a vida é isso mesmo. Curta, mas também um ciclo infinito de impermanências. Uma fila de começos e recomeços. Há tanto a ser feito… mas para quê torná-la penosa? Vida é isso: a cada manhã abrir os olhos e descobrir que “Epa, ainda estou aqui”! E que seja com todos os créditos e os débitos passados em revista por um coração agradecido.  Afinal, apesar das circunstâncias, é sine qua non que a vida não doa, mas faça bem ao coração.

“Não chores, que a vida é luta renhida: Viver é lutar”. (Gonçalves Dias)

Falando nisso, ano novo não é algo induzido a goles de champanhe. Isso é pura ilusão de ótica, pura convenção. Se piscar, passou. E o que ficou?

Ano novo mesmo é  feito a cada dia. É um salto para dentro de si mesmo. É a vida em movimento.  É o futuro que já é. É o preencher o dia do silêncio. E o silêncio diz sabiamente Guimarães Rosa: “… é a gente mesmo, demais”. E a gente mesmo, demais não precisa gritar para alardear esperanças. A gente mesmo, demais é logo ali, tão perto. E, verdade seja dita, os fogos de artifícios não são páreos para as histórias que a consciência conta ao pé do ouvido. Sim, o recomeçar se define em um compasso interno, sereno e a seu tempo; que se traduz em um resgate a nos salvaguardar do que não podemos controlar. Pois do contrário, diz a sabedoria shakespeareana, a vida não passa de uma história “cheia de som e fúria, e que nada significa”.

NADA. Isso mesmo. Nada. Quem nunca nessa vida falou e falou, mas não disse nada? Nessa época do ano o nada marca presença travestindo-se das falsas ou meias promessas que não dizem nada senão que não há NADA de novo debaixo do sol a não ser que se queira e faça mudança. O que, convenhamos, não é  nenhuma colher de sopa. Nem mesmo de lentilhas. É apenas algo do tipo assim:

“Procuro despir-me do que aprendi
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu...”

(Alberto Caeiro)

Passamos a vida vivendo somente a superfície. Assim, tudo é mesmo repetição. Desperdiçamos  nossa energia em coisas que não duram, em falsas alegrias que não passam de sopro. E que se evaporam num zás.  Desse jeito fica muito fácil impregnar o que está ao nosso redor de pessimismo. E quase sempre é essa a ressaca que se leva para o ano que vem e para mais outros tantos anos que virão.

Mas a citação acima nos fala de uma sabedoria anticíclica, um antídoto para as esperanças datadas. Como que a dizer: busque trazer a consciência para os seus dias, imbua-se da compreensão de aqui ser e estar.  Busque ser presente. Para si e para os outros. Olhando para frente, esquerda, direita e também para trás.

“E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança, se ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…”

(Alberto Caeiro)

Diante disso, o que há mais para ser dito?

Sem mais, dessa que busca o novo para si sem marcar no calendário, desejo que todos façamos um bom 2015. Muitos pasmos essenciais para todos nós!


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