Uma coluna para chamar de minha, com Vivi Lima

Sobre o amor

Não existem receitas para amar. Porém, é fato: quem aposta (aposta mesmo!) na relação a dois entra com a disposição de construir uma convivência sólida e feliz.  Pois, sabe que tem de tomar decisões de amor todos os dias, sem se omitir. Afinal, a intenção é de engajamento. De ambas as partes, fique claro.  No entanto, o negócio pega quando os pesadelos das imagens sobre o que é o amor entram em cena roubando a glória dos próximos atos e conturbando o cenário lindo do que já se construiu. 

Por exemplo, acho engraçado quando alguém diz que tem medo de amar por causa da rejeição. Sabe por quê?  No fundo, no fundo, esse alguém sabe que não é para dar certo, mas prefere viver a mentira consciente de que o outro não tem nada de bom a lhe oferecer no momento quando, na verdade, a intenção de boicote está em si mesmo. Para quê o engodo? Que se assuma os amores e dissabores da relação sabendo que “o fim está contido no princípio*.”

Ora, se no início de um relacionamento são depositadas as culpas, os traumas, os apegos, os medos e etc., qual o fim que se pode esperar?

E depois do fim constatado, indaga-se: “Porque não acordei antes para consertar essa visão distorcida de amor que inventei quando estava na caverna escura das minhas inseguranças e da minha falta de amor”?

Medo de amar para não ser rejeitado? Isso não existe. Isso é especulação fantasiosa da mente.  As pessoas que estão do nosso lado não são determinantes da nossa felicidade tampouco dos nossos medos, anseios e disfunções. Como se pode jurar fazer alguém feliz, eu me pergunto.  É muito expectativa de “felizes para sempre” alimentada ao longo de toda vida enquanto se espera que somente uma das partes a cumpra fielmente. Amor é coisa séria. Não é confeito de bolo. É energia de entrega e recebimento. Essa troca de energia conecta céus e terra e nos liga ao outro e ao meio ambiente.  E assim, todos ganham.

Na maioria dos romances ficcionais é comum deixar-se tudo arranjadinho nos conformes do manjado “happy end eterno”. No campo do real, não é bem assim. O amor não é de fantasia.  Pois, lida com o que é, com que aí está ainda que isso seja de doer até as tampas da alma.  Tem romance? Tem, lógico. E como é bom!  Mas, acima de tudo, tem a verdade nua e crua de que a conduta afeta a crença. Se você põe fé nisso, inicia o seu dia sabendo quem você é e no que acredita. Se você sabe o que é fazer amor e o pratica de alma, entendimento e coração, também sabe que o “happy end” é feito de recomeços. Ocorre em todos os durantes diários, na sabedoria de retirar de cada dia a sua porção de felicidade. Não há outro modo, amar se aprende amando. Mas, é preciso percorrer o caminho, pois “caminante, se hace camino al andar**”.  A gente muda com o tempo, disso já sabemos.  Mas, se há verdade em nós, o amor não saberá nunca desamar.

“ — Como posso mudar? Não posso passar por isso outra vez. Harry, juro por Deus, perderei a cabeça.
— Merda. Bradley, ouça. Você deve ficar alerta, atento.
— O que quer dizer?
— Bem, tudo o que devemos saber está sempre diante dos nossos olhos. Sim, nós temos ilusões, esperanças e as pessoas podem nos cegar. Mas o fim já está desde sempre no princípio.
— Kathryn disse que eu nunca a vi. Talvez nunca tenha visto a Diana também. Eu só estou à procura de um pedaço de felicidade, então fecho os olhos e pulo.
— Ok, então da próxima vez...
— Não pulo?
— Não, não. Pule! Pule, mas de olhos abertos”.

(Citação do filme Banquete de Amor)

** Citação colhida do poema Proverbios y cantares XXIX do poeta espanhol Antonio Machado.


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8 comentários:

  1. Vivi!
    Que coisa linda! Concordo com que você escreveu! Me lembrei de uma amiga muito bonita que acredita que só sera feliz se namorar um homem um homem com pouco ou nenhum atrativo físico :( Ela está tão infeliz... Ela não dá chance ao amor...
    Sabe no meu casamento alem de Amor tem outras palavras: Tolerância, Paciência, Perseverança, entre outras!
    Bju

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    1. Fabiana, a fala de uma pessoa muito próxima a mim inspirou esse texto. Ela pensa como sua amiga. São pessoas que precisam descobri-se amando a si mesma. Não amar ao ego, à auto-estima. Falo de sair do campo da pessoalidade para amar e si mesmo e ao outro de forma, digamos, para além de si. Parece complicado, mas você, em sua fala, colocou elementos importantes ao exercício de amar. Tolerância, paciência, perseverança são de fato imprescindíveis.

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  2. Muito bem colocado. Amor não é perfeito, visto que as pessoas também não são. E não é uma estrada pavimentada de flores: somos nós que, ao passar, as plantamos.

    Mandou benzaço, Vivi! Beijos!

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    1. Belo complemento à minha argumentação, Cupcake! Amei!!! Tá anotado.

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  3. Sei lá, Vivi, mas depois que li que amar é "apesar de", e não "por causa de", fiquei esperta e deixei a purpurina para os romances que adoro ler.
    Porém, depois de um casamento de 28 anos, aprendi que a palavra é resiliência!
    Temos que ser resilientes sempre, e aproveitar os flash de felicidade.
    Como sempre uma delícia de coluna. É um prazer encontrar você,
    Bjks

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    1. Sábias palavras, Sueli! O "apesar de" põe as coisas em seu devido lugar desde que seja aplicado de modo inclusivo. Ou seja, amar não apenas apesar do outro, mas como apesar de nós mesmos. Bjs!!!

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  4. O amor é um exercício constante e dentro de um relacionamento não é brincadeira mesmo! Concordo com tudo que você disse amiga! Texto perfeito!
    Beijos

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    1. Isso, Lili! Amor é coisa séria que deve ser vivido com a leveza de quem brinca. As crianças costumam nos ensinar muito sobre isso....Smack!!!

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