Para cada leitor um livro... 2ª Guerra Mundial.

Hoje tenho o prazer de contar com a presença da minha querida amiga Inara, Náh para os íntimos, do blog Ler, Dormir, Comer... Conheço a Náh há muitos anos, aprecio seu gosto literário e foi um imenso prazer que ela me brindou com a ideia do explorar o tema Segunda Guerra Mundial.

Seja bem-vinda Inara! 

Eu li um livro uma vez, sobre uma garotinha que roubava livros de uma pilha que estava sendo queimada no meio da rua. Também houve outro livro, no qual uma garotinha prendia o irmãozinho caçula dentro do armário ao ser presa juntamente com os pais pelo regime. Na tentativa de protegê-lo, prometendo a ele que voltaria logo para buscá-lo. Um pouco mais distante dessas duas, havia outra menininha, na região do Báltico, que fora jogada dentro de um trem juntamente com a mãe e o irmão e levada para o Gulag, na Sibéria, onde eles tiveram que trabalhar arduamente por uma ração ínfima de pão e sofreram toda espécie de maus-tratos. O que essas três garotinhas tinham em comum? Viveram o horror do domínio de homens como Hitler e Stalin, em países devastados pela guerra e pelo extremismo.

Está sendo realmente muito difícil encontrar as palavras certas para escrever esse texto. É tão difícil escrever sobre algo que toca fundo algum cantinho escondido dentro da gente, não é? Parece que nunca encontramos as palavras, o tom e a emoção certa. Quando enviei o e-mail para a Leninha contando sobre a minha ideia de escrever a respeito de livros que se passam durante a Segunda Guerra Mundial, pensei que seria fácil colocar as palavras no papel. As palavras até são, é verdade, mas a emoção parece ficar presa lá dentro da gente, acorrentada e trancada com um cadeado. E, principalmente quando falamos de livros, sempre queremos que o outro sinta a mesma coisa, se emocione na mesma medida. O que quase nunca acontece, é óbvio, porque cada leitor enxerga a mesma história de uma maneira diferente. Cada leitor absorve o livro de uma maneira diferente.

Não sei exatamente o que tanto me atrai em livros que se passam nesse período. Talvez seja o fato de que, por mais doloroso, angustiante e exaustivo que seja ler sobre isso, apesar de toda a tristeza que permeia as páginas desses livros, há também uma espécie de alegria difícil de descrever, e ainda mais de encontrar. É uma alegria que nasce da dor, mais tocante e sincera do que qualquer outra. Para essas pessoas que perderam tudo, inclusive a dignidade, encontrar alegria nas pequenas coisas foi tudo o que restou.

A menininha que, por ter crescido em um campo de concentração, não fazia ideia do que era um bolo. Nem chocolate. E comemorou o seu aniversário com uma batata velha. E sorriu. A fumaça que espiralava das construções e impregnava o ar. Velhos e crianças. Velhos e Crianças. E uma menininha cantando e sorrindo do outro lado da cerca. Seres humanos amontoados em vagões de trem como mercadorias sem valor algum e uma leva de homens que havia perdido tudo entoando o hino de seu país a plenos pulmões. Corpos amontoados em pilhas. O medo. O desespero. Aqui e lá. Nos guetos. Nos campos de concentração. Dentro da própria Alemanha nazista de Hitler. Na Polônia. No Báltico. Em todo o lugar.

Tenho essa mania, de me lembrar de livros e filmes através de pequenos lampejos de memória, pequenos acontecimentos, três frases numa página inteira. E, principalmente quando são narrados durante a Guerra, essa mania parece fazer todo o sentido. Não ouso absorver a dor toda numa única inspirada de ar. Tem que ser aos pouquinhos, devagarinho porque, mesmo agora, meses depois de ler livros como “A menina que roubava livros” (Markus Zusak), “A Chave de Sarah” (Tatiane de Rosnay) e “A vida em tons de cinza” (Ruta Sepetys), ainda é difícil relembrar. Ainda emociona, sabe, ainda agita alguma coisa aqui dentro, e é isso que me faz perceber, antes de qualquer coisa, o quanto esses livros são incríveis. O quanto devem ser lido por todos.

“A Chave de Sarah”, principalmente, me fez perceber uma coisa: nossa verdadeira prisão não são as cercas ao redor nem os homens armados vigiando tudo e todo passo, é a nossa própria consciência. Essa é a prisão da qual não se pode escapar. Sarah, a segunda garotinha da minha história, aquela que trancafiara o irmão num armário prometendo que voltaria logo para buscá-lo. Que tentara apenas protegê-lo dos homens que haviam vindo buscar sua família. Mas que não pudera proteger a si mesma no caminho.

Eu gosto de livros que me emocionam, que me fazem transbordar lágrimas e secam alguma coisa aqui dentro ao mesmo tempo. São livros que nos mostram que, apesar de todas as dificuldades, de todas as dores, ainda há um motivo para sorrir, por menor que ele seja. Nos mostram a verdadeira natureza humana que, tanto quanto é capaz de ferir, é de lutar pelo que é certo, fazer o bem. Em todos esses livros, sempre houve alguém assim, abrindo as portas e o sorriso para quem não precisava de nada além de uma mão estendida e carinho no olhar. Então, recomendo a todos vocês que mergulhem nos livros que se passam nesse período, a Segunda Guerra Mundial, que leiam de coração e mente aberta. Mas um aviso: tenham cuidado. Eles marcam o coração da gente de uma maneira irreversível. Toda a dor e toda a alegria que restou. Não dá para não encarar o mundo de uma maneira diferente no dia seguinte.

Inara.

13 comentários:

  1. Ei Inara e Lena

    Muito lindo o tema de hoje, adorei mesmo.
    Engraçado que eu comecei a ler o texto e reconheci as cenas que vc citou na hora, menos A vida em tons de cinza que eu tenho, mas não li ainda. Até pensei que vc estava falando de Jardim de inverno, mas depois vi que não era rs.

    Eu também adoro este tema, e também não sei explicar porque gosto tanto. Acho que nas suas cenas faltou só citar o meu top favorito, não sei se vc leu, O diário de Anne Frank. :)

    bjs

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    1. Oi, Fernanda!

      Que bom que gostou! :) Eu ainda não li "O Diário de Anne Frank", mas tá na lista de desejados!

      Beijos!

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  2. Oi Inara,
    sobre esse assunto eu já li alguns livros e concordo contigo: eles marcam. Li O diário de Anne Frank há séculos e ainda me pego pensando nele de vez em quando.
    Mas como eu tenho um acordo com meu sistema nervoso de não ler livros que provocam choro e taquicardia, tô fugindo dos bixim.
    Quem sabe um dia eu viro macho e encaro? kkkkk
    Adorei o texto.

    bjooooo

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    1. Ain, Tícia! Eu sou suspeita a falar porque eu amo, adoro, é o meu tipo favorito de livro! kkkkk (Tenho problema, é!)

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  3. Quando surge o tema "Segunda Guerra" já me vem logo na cabeça o maravilhoso "A Menina Que Roubava Livros" que foi um dos livros mais impactantes e emocionantes que já li até hoje e coincidentemente a Nah começou este post falando dele.
    Este é um tema que me comove sempre.

    Beijo, Vanessa Meiser - Blog do Balaio
    http://balaiodelivros.blogspot.com.br/

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    1. "A Menina que Roubava Livros" também é o meu favorito, Van! Seguido de pertinho por "A Vida em tons de Cinza"! São os dois que me marcaram mais, eu acho!

      Beijos!

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  4. Puxa, Inara, que texto lindo! O único livro que li nesse estilo foi "O Diário de Anne Frank", mas não chega a detalhar tanto os horrores da guerra, afinal narra apenas o período em que ela ficou escondida com a família. Já assisti muitos filmes e chorei em todos eles. Não sei se aguentaria ler um livro e passar dias, semanas mergulhada nessas sensações que vc tão bem descreveu. Mas confesso que após ler esse texto, deu até vontade de procurar algo do gênero.
    Parabéns, amei mesmo!

    =)

    Suelen Mattos
    ______________
    ROMANTIC GIRL

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    1. Obrigada, Suelen! Fico feliz que tenha gostado! "O Diário de Anne Frank" eu ainda não li, mas quero muito!

      Beijos!

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  5. Ei, Leninha!

    Passando para agradecer o convite e dizer que fiquei muito feliz em fazer parte do aniversário do "Sempre Romântica", viu? Muitos anos de vida mais para o blog!

    Beijos,
    Inara
    www.lerdormircomer.com.br

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    1. Obrigada Náh, foi uma honra ter você por aqui e abordando um tema que amo de paixão.
      Ano que vem tem mais, o convite já está valendo!
      Bjs

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  6. Bem ainda nao vi essa nova coluna, mas ja gostei dela. O tema abordado é um dos meus preferidos para se estudar, ha quem apoiei os fatores que levaram a guerra e outros nao, bem dos livro citados nao li nenhum (novidade), o que eu nao conheço é A Chave de Sarah e ja vi que irei adorar a historia.


    xx

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  7. Como é difícil discorrer sobre esse assunto. Não sei muito bem explicar porque esse tema tanto me fascina, diante de toda a sua atrocidade. Talvez a necessidade de conhecer a história. Talvez a necessidade de compreender os motivos que levaram alguns a orquestrar, incitar, desencadear e praticar tanta sordidez e sevícia. E quanto mais reflito, mais longe deixo de chegar a uma conclusão e mais longe deixo de entender a natureza humana, e mais abismada fico diante de tanta desumanidade. Milhares de pessoas mortas, reduzidas a nada, a pó, destituídas de sua dignidade. Tanta violência, insanidade, abuso, fome, desalento, desesperança, desespero, tristeza, falta de saúde física e mental, miséria, etc... E para quê? Por quê? Não sei! E então as histórias dos sobreviventes combalidos. Histórias realmente marcantes, emocionantes, que ficam gravadas a ferro em nossas mentes, sempre nos fazendo lembrar, não deixando que caiam no esquecimento, afinal, a paz um dia se deu, mas a que preço, e com um gosto realmente amargo.

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  8. Dos livros que você indicou, somente não li "A menina que roubava livros", e gostaria de te indicar um livro maravilhoso de uma autora nacional = "Apátrida" de Ana Paula Bergamasco.
    "Jardim de Inverno" da autora Kristin Hannah é outro livro muito bom.

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