Uma coluna para chamar de minha, com Vivi Lima

O texto abaixo foi escrito há um tempinho.  Tenho um carinho especial por ele. Porque é a expressão de um amor imenso que carrego dentro de mim pelos queridos que se foram deixando flores, sol e amores. Quero compartilhá-lo com vocês hoje.  Se encontrar proveito em seus corações, terei ganhado o dia. Um grande abraço!



Uma Bicicleta Vermelha No Céu

Existia uma cor para a tristeza de Joana. Vermelho. Um par de botas pedalando uma bicicleta vermelha. Pedalando uma bicicleta vermelha e assobiando uma canção. Assobiando uma canção até tocar as estrelas. “Quanta lonjura”! Pensou assim que sua mãe lhe dissera que ele fora morar nas estrelas. “Devia ser muito longe mesmo tal lugar, caso contrário, ele poderia ter ido muito bem de pé”.

Joana odiou ter feito aquilo, mas chorou um berreiro e esperneou.

— Papai não podia ter ido para qualquer lugar mais perto?

Sem resposta, a mãe circundou-a com os braços e esperou pacientemente a tempestade dentro dela se acalmar.

— Está tudo bem, querida?

Joana sacudiu a cabeça e esboçou um sim em suspiro. A mãe deixou-lhe sentada ao chão com os queixos sobre os joelhos enquanto ia, num segundinho, pegar um pedaço do bolo da vovó.

— Você está um saco vazio, menina!

Joana não teve forças para dizer que não queria bolo, que não queria nada a não ser esvaziar-se por completo até sobrar de si mesma somente aquela enorme ferida que a consumia. Porém, não disse nada. Apenas, deixou-se ficar como um saco vazio.

“O estranho é que estando ele tão longe, mais perto está de mim...enraizado até”. Pensou.

A cada dia sangrava mais do que nunca a raiz da saudade rompendo seu coração crestado pelo forte vento da insegurança.

— Estou com tanto medo de levar papai assim atravessado em meu coração —. Falou para a mola quebrada alojada em um rasgo na beirada esquerda do antigo sofá azul. Havia uma verdade fora de controle gritando dentro dela. Havia também um punhado de “não sei” que lhe enchia as duas mãos, enrodilhava-lhe os pés, atulhava-lhe os bolsos e apertava-lhe o coração; todos embaralhados no olho do furacão, gritando apertados no esconderijo insano em que os pusera.

Um pensamento incutiu-lhe no rosto um sorriso. Estranho pensar em seu pai voando em uma bicicleta. Como o ET do filme! Jonas de mudança para as estrelas, com uma lua brilhante a emoldurar sua sombra.

Era doloroso e ao mesmo tempo divertido recordar-se do pai. As lembranças vinham luminosas, da cor do pôr-do-sol, no que então era preciso bloquear os olhos com os braços para poder ver as mechas de seus cabelos compridos soprando-lhe a face. Na sua imaginação, ele sempre parecia surpreso ao vê-la, mas, passado o instante de reconhecimento, ele ria com ela.

— Viver é como andar de bicicleta, se você frear, não ganha —. Ele costumava-lhe dizer em tom de brincadeira enquanto ela, olhos saltados iguais ao dele, observava atentamente os gestos que o pai fazia ao apalpar o ar com as mãos desenhando alguma coisa para ilustrar o que dizia. Então, ele emendava:

— Mas, se você cair — avisou ele batendo a mão direita de encontro a esquerda em um plaft surdo—, pode deixar que eu te ajudo a levantar! Está a fim —? E ela saltava de alegria em resposta.

Joana experimentou o riso com a ponta da língua testando seu sabor. Ultimamente, suas risadas tinham um gosto inusitado de esquisitice. Verdade. O riso era um corpo estranho dentro dela, chegava a rasgar. Lembrava-se bem do dia em que guardara os seus risos numa caixa listrada com faixas brancas e azuis dentro do porão. Poderia guardá-los em qualquer lugar mas, não teria sentido algum despejar sua infelicidade em outro lugar que não fosse um porão solitário e cheio de significados. Dentre eles, o que mais lhe pesava agora era seu pai assobiando Intuição de Oswaldo Montenegro — a música preferida de ambos— enquanto pedalava sua bicicleta vermelha. No meio do caminho, ele olhava para trás para ver sem enxergar a mancha indistinta de seu lar. Pela última vez.

Na verdade não o vira partir. Mas, virara um rito imaginar que fora assim. Um dia ouvira uma conversa entre seus tios, Lorena e Décio; sabia que estavam falando de seu pai, por isso, escondeu-se por detrás de porta entreaberta para escutar. Não demorou muito para que algo como “beijar o asfalto” chegasse aos seus ouvidos. “Não, não! Não foi assim”! Quis gritar. Se ele beijasse o chão, ele não conseguiria assobiar sua parte preferida da música que era justo bem no finzinho. “E hoje quem não cantaria, grita a poesia e bate o pé no chão”. Tinha certeza que ele preferiria ir embora assim, assobiando a canção inteira.

Na noite desse mesmo dia, Joana dormiu à beira do precipício que seu pai se tornara. Por mais paralisante que fosse não saber o dia de amanhã, a vida aconteceria todos os dias exatamente igual. Despertaria sempre igual à ontem com sua mãe a acordá-la e a alimentá-la. Iria para escola, ansiando por estar na sala de leitura onde preferiria esquecer-se no mundo de Raquel e sua bolsa amarela. De certa forma, o mundo de Raquel era um mundo de pedidos ocultos tal qual o dela.

Foi então que teve ideia de revelar seu pedido em um bilhete que penduraria no umbral da porta de casa. Para que, assim que seu pai voltasse, esse fosse o marco do primeiro ano do resto de suas vidas. Pressentia sua volta. Afinal, um ano é um tempo muito longo para um ciclista amador ficar fora de casa. O que ele precisava era de um estímulo para voltar e de um significado para ficar. Ela os daria. Em algum lugar das Estrelas, na desolação aberta do céu, ele a escutaria.

E que os céus não mudassem um fiapo dessa verdade!

À noite, ela pregou o bilhete no umbral da porta como planejara. Pediu aos céus que não mudassem um fiapo dessa verdade e foi dormir à beirada do abismo que era seu pai. E a brisa da noite tratou de acolher seu recado.

“Se a vida é como andar de bicicleta, a sua vida é como uma bicicleta que parou de andar por um tempo. Está só encostada em um depósito seguro até que alguém que se importe volte algum dia para pegá-la. Eu me importo e a mamãe também. Escuta, pai, sua é vida aqui com a gente. Não importa se ela está fora da rota, com os pneus murchos e até com as rodas tortas! Dá-se um jeito, a gente endireita. Mas, enquanto houver fé, os pedais estarão bonzinhos para pedalar. Olha, pai, você pode cair. (plaft!) Eu, porém, te ajudo a levantar. Está a fim?”

No céu, uma estrela saltou de alegria. E sorriu um vermelho-regresso.


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4 comentários:

  1. Tão singelo e profundo, inocente e emocional.
    Parabéns Vivi por ter escrito algo tão lindo, você tem o dom de emocionar com singeleza.
    Não canso de ler...

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  2. Oi, Vivi.

    Esse texto é de uma simplicidade que nos toca no fundo de nosso âmago.
    Me emocionou porque sinto que acontecerá um dia com uma pessoa que amo demais e que está passando por um momento difícil. Mas ainda tenho aquela saudade por não ser mais quem era.
    Seu texto me tocou fundo.
    Beijos.

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    1. Carla, suas palavras também me tocaram fundo. A vida real me toca bem mais fundo. De modo que o texto é apenas uma breve síntese do que é a vida, suas perdas e ganhos. Fico feliz de ter transmitido uma sombra do que realmente é a vívida e intensa dor da saudade. Mas, não percamos a esperança. Um grande abraço, queridaça!

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