Minha estante precisa conversar comigo


Tenho uma relação muito séria com a minha estante. Séria mesmo. O problema é que, aparentemente, ela não tem a mesma relação de seriedade comigo. Ou talvez tenha e esteja apenas cansada das minhas desculpas. 

Minha estante tem mais de cinco mil livros. Sim, você leu certo: mais de cinco mil! E, no meio desse pequeno acervo digno de uma biblioteca, existe uma quantidade considerável de livros esperando pacientemente pela sua vez.

Alguns estão esperando há anos.

E eu? Continuo comprando.

Porque, aparentemente, cinco mil livros não são suficientes.

É aí que começam os problemas que só existem para quem tem uma estante grande. Falta espaço, você precisa reorganizar tudo, descobre livros que nem lembrava que tinha, encontra aquele título que estava procurando há meses… e, principalmente, precisa lidar com a pergunta inevitável:

“Quando você vai ler tudo isso?”

Não sei. Próxima pergunta! 

Se minha estante pudesse falar, acho que ela já teria perdido a paciência comigo.
Provavelmente me olharia toda séria e diria:

— Leninha, você tem livros suficientes para ler até o fim da vida. Pare de comprar, saia da internet e vá ler!

E talvez completasse:

— Se você continuar nesse ritmo, vai precisar viver umas três vidas para dar conta dessa estante.

E eu não teria nem como argumentar.
Porque a verdade é que eu compro livros o tempo todo. Mesmo sabendo que tenho dezenas, centenas — talvez milhares — esperando por mim.

A desculpa?

“Eu preciso ter esse livro.”
Preciso.
É diferente de querer. É necessidade literária. 

O detalhe é que eu sei, no fundo do meu coração, que provavelmente não vou ler aquele livro tão cedo. Talvez nem nos próximos meses. Mas isso não impede a minha mão de clicar em “comprar”.

E lá vai mais um livro morar na estante.

Ele chega todo feliz, eu coloco no lugar e penso:

“Agora sim! Um dia eu vou ler você.”

O “um dia” é uma entidade misteriosa na vida de quem lê. Ninguém sabe exatamente quando ele chega, mas todos acreditamos nele.

E assim vai crescendo a minha pilha de livros não lidos.

Minha relação com eles é uma mistura de amor, culpa e esperança.

Eu olho para eles e penso: “Preciso ler você”.

Depois olho para a fila enorme e penso: “Mas calma… você vai esperar.”

E eles esperam.
Sem reclamar.
Sem cobrar.
Sem mandar mensagem perguntando quando será a vez deles.

Talvez seja justamente isso que eu mais amo nos livros. Eles entendem que existem momentos. Alguns chegam até nós e são lidos imediatamente. Outros precisam esperar. Às vezes por meses. Às vezes por anos.

E eu gosto de acreditar que os livros certos encontram a gente na hora certa.

Mas… será?

Porque, olhando para os mais de cinco mil livros da minha estante, começo a desconfiar que alguns estão esperando há tanto tempo que já devem estar fazendo amizade entre si. 

Talvez exista um grupinho lá no fundo dizendo:

— Você ainda não foi lido?

— Não.

— Eu também não.

— Vamos esperar.

— Ela comprou mais livros ontem.

— Ah, então estamos perdidos.

No fundo, eu sei que não vou conseguir ler tudo o que tenho. E provavelmente continuarei comprando enquanto houver livros que despertem aquela sensação irresistível de: “Eu preciso ter esse!”

É um relacionamento complicado, mas muito feliz.

Eu e meus livros não lidos temos um acordo silencioso: eu prometo que vou chegar até eles algum dia, e eles prometem continuar me esperando.

E, enquanto isso, minha estante provavelmente continuará tentando me dar uma ordem:

“Pare de comprar livros. Desligue a internet. Pegue um dos cinco mil que você já tem e vá ler!”

Eu deveria obedecer.
Deveria mesmo.
Afinal, quem sabe assim eu consiga ler tudo antes de partir dessa vida.
Embora, pensando bem…

Se eu continuar comprando desse jeito, talvez seja melhor começar a planejar a próxima encarnação literária.






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